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Quinta, 26 Janeiro 2023 10:59

Angola e o poder à força - Gonçalo Ribeiro Telles

Será que na cabeça dos que ainda governam com João Lourenço não se entende a urgência de trazer a UNITA para as grandes questões que dizem respeito ao presente e futuro do país? O oposto que tem sido prática contínua não acaba por dar razão a quem defende que houve fraude nas eleições?

O equilíbrio das forças no poder político em Angola e na governação só poderia ter mudado depois do dia 24 de agosto. Era difícil a um partido como o MPLA que viu cerca de 80% dos eleitores votar no partido da oposição na capital, Luanda, que é também onde residem a maioria dos angolanos, prosseguir na administração do país como se nada tivesse de ser transformado a partir daí. Sobretudo, depois da UNITA ter obtido a vitória noutras províncias chave, como Benguela, Lobito, Zaire, Cabinda e entre a maioria esmagadora dos jovens que residem naquele país.

Vários grupos da sociedade civil e outros pertencentes às elites angolanas que antes votavam no MPLA e agora se viraram para esta UNITA liderada por Adalberto Costa Júnior (ACJ), queriam uma tomada de posição mais musculada perante os resultados nacionais (51-44%) e junto das instituições, considerando esse mesmo desfecho, fraudulento.

Mais do que as razões invocadas para sustentar essa fraude eleitoral e das quais não tenho matéria de facto para concordar ou discordar, verifiquei como em cada afirmação pública, o mesmo ACJ sempre se afastou dessa narrativa. Na altura, um simples sinal bastaria para montar a tempestade perfeita, mas, Costa Júnior provou, uma vez mais, como se fazia por apagar e de forma completa a imagem da UNITA de partido guerrilheiro, deixada por Jonas Savimbi.

Ao contrário de muitos que acreditavam e continuam a crer que o MPLA só sairá do poder em Angola à força, o líder da UNITA demonstrou o verdadeiro sentido de Estado que falta ao atual presidente angolano. Sabe que não há poder que dure da mesma forma depois do sinal dado pelo povo angolano há cinco meses. Até o controlo completo de grande parte dos meios de comunicação social por parte do MPLA, desde a televisão, jornais, à rádio, sem contraditório e em especial, sem espaço para uma UNITA com tanta representação e reflexo no país, já só significa mais do mesmo e funciona contra João Lourenço.

Daqui ao mais relevante da ausência de transformação e desequilíbrio das forças políticas na governação depois dos resultados oficias de dia 24 de agosto saltam à vista algumas questões óbvias e prementes. A primeira das quais depreende-se com o facto de perceber como é possível que João Lourenço não tenha ainda dado qualquer sinal de querer iniciar o processo de eleições locais…(?) Alguém no seu perfeito juízo julga que consegue liderar decentemente Angola quando três quartos dos eleitores de Luanda não estão com ele e o MPLA?

Torna-se ainda hoje perigoso subordinar populações locais a um poder político no qual não votaram e contra o qual lutam. Além disso, será que na cabeça dos que ainda governam com João Lourenço, não se entende a urgência de trazer a UNITA para as grandes questões que dizem respeito ao presente e futuro do país? O oposto que tem sido prática contínua não acaba por dar razão a quem defende que houve fraude nas eleições?

Eternamente dependente do petróleo e sem ter iniciado a diversificação da economia, tudo piorou para João Lourenço desde setembro. Sem programa político e tirando os dois ou três de sempre, a maioria da elite empresarial angolana não aceita uma governação do MPLA sem a abertura da UNITA ao poder. É preciso que tudo mude para que nada fique igual no país. Até porque para fora de Angola e desde o dia 24 de agosto, o interlocutor político deixou de ser alguém apenas e só do MPLA. EXPRESSO

 
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