Sexta, 18 de Junho de 2021
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Quinta, 06 Mai 2021 11:59

JES humilhado: Castigo divino, cobardia ou falta de lealdade no MPLA? - Mariano Brás

Sou dos cidadãos, e não são poucos, que não perdoam José Eduardo dos Santos, principalmente pela forma desastrosa como governou o país. Não posso, entretanto, deixar de criticar o tratamento dado a JES por membros do MPLA.

Falamos daquele que um dia foi visto como “semideus”, “herói nacional”, “arquitecto da paz” ou mesmo “responsável pelo ar que respiramos”. O presente mostra que os elogios foram proferidos por lobos em pele de cordeiro, por meros bajuladores dissimulados.

JES foi, sem dúvida alguma, o cabecilha do bando que empurrou Angola para o abismo, mas foi, diga-se, um militante que deu até o que não tinha para manter o MPLA no auge e garantir o bem-estar estar dos seus correligionários. Com Eduardo dos Santos ao leme, os membros do MPLA foram sempre privilegiados. Ponto final.

Hoje, soa a humilhação a situação do homem, tão vergonhosa quanto preocupante. Os militantes do partido dos camaradas, salvo raríssimas excepções, mostram claramente que não são leais a ninguém. São apenas, melhor dito, para com as suas barrigas. Como se pode acreditar nas promessas eleitorais de dirigentes do MPLA que outrora endeusavam JES e hoje o tratam como se fosse Lúcifer? Que tremenda ingratidão!

Muito se fala, e até com alguma sustentabilidade, da perseguição de JLO à família dos Santos, mas não restam dúvidas de que os chamados tubarões do MPLA têm capacidade para colocar fim a uma situação nada abonatória para a imagem do país.

O MPLA passa a imagem de um partido vingativo, de ingratos sem moral e que não respeita os seus ex-dirigentes. Confesso que nem nos meus mais delirantes sonhos imaginava tal realidade, nem mesmo se tiver em conta que mais que o ex-PR tenha colocado a maioria do povo angolano na pobreza.

Os exemplos e as analogias valem o que valem, mas é conveniente olhar para o tratamento que a UNITA dá a Savimbi, seu líder fundador, acusado de tudo e mais alguma coisa.

Assistir ao vídeo que circula nas redes sociais, em que José Eduardo dos Santos surge rebentado, provoca arrepios. A esta altura, convenhamos-nos, JES estaria a repousar e a tratar do seu estado de saúde, a envelhecer de forma condigna.

José Eduardo dos Santos, ou melhor, José Eduardo Van-Dúnen, foi o segundo presidente de Angola, isto de 1979 a 2017, tendo chegado ao poder com apenas 37 anos, num dos piores períodos da vida política de Angola.

Substituto de Agostinho Neto, José Eduardo dos Santos foi eleito presidente do MPLA a 20 de Setembro de 1979 e investido, no dia seguinte, nos cargos de presidente da República Popular de Angola e comandante-em-chefe das FAPLA (Forças Armadas Populares de Libertação de Angola). Também foi eleito presidente da Assembleia do Povo a 9 de Novembro de 1980.

De 1986 a 1992, José Eduardo dos Santos teve um papel de destaque na solução da crise transfronteiriça entre Angola e a África do Sul, que culminaria no repatriamento do contingente cubano, na independência da Namíbia, e na retirada das tropas sul-africanas de Angola.

José dos Santos, apesar dos seus defeitos, é considerado por muitos como um chefe de Estado moderado, um líder pacífico, isto é, não foi um líder com as mãos ensanguentadas. Lembro-me de ter ouvido de um agente do SINSE, que raptou um dos filhos de Savimbi, que JES não era assassino, ao contrário do seu chefe directo.

Os acontecimentos até ao dia 4 de Abril de 2002 são um indicador de que Eduardo dos Santos é um homem de paz, não fosse ele, diga-se o que se disser, o mentor do Governo de Reconciliação Nacional. Foi também neste período que abriu portas ao enriquecimento ilícito, ao saque do erário, facto que constitui a principal nódoa do seu percurso político.

O petróleo chegou a proporcionar, em 2012, um OGE de 69 bilhões de dólares. No entanto, segundo o Fundo Monetário Internacional, 32 mil milhões de dólares das receitas de petróleo sumiram dos registos do governo.

Curiosamente, o ex-PR, hoje visto como a pior figura, já teve vários prémios e reconhecimentos, entre os quais o de "Homem do Ano 2014", atribuída pela revista “Africa World”. Segundo a publicação, a escolha do líder angolano deveu-se ao seu contributo para o excelente processo de recuperação económica e democrática de Angola desde o fim da guerra.

A 8 de Maio de 2015, o ex-presidente angolano foi galardoado com o prémio de boa governação “Meafrica Award”, no Dubai, Emirados Árabes Unidos. O Meafrica Awards é uma organização sem fins lucrativos que distingue personalidades individuais que contribuem para a facilitação de investimentos e das relações económicas, para as economias em desenvolvimento, só para citar estes.

Alguma coincidência com o percurso do actual presidente da Republica? Não há garantia de que João Lourenço, daqui a 8 anos ou em 2022, não vá sofrer a mesma situação ou, na pior das hipóteses, os seus descendentes.

Os dirigentes do MPLA que trabalham com JLO em troca de perdão judicial, como é o caso do actual secretário do MPLA na provincial de Luanda, Bento Bento, o criador do slogan “graças ao camarada presidente José Eduardo dos Santos” (matéria para as próximas edições), são vistos como desleais e cobardes por verem JES humilhado, ultrajado e abandonado, mas sem que intervenham. É, pois, natural que se insista na pergunta: Será que JLO terá um futuro diferente?

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