A operação enquadra-se no Programa de Privatizações (PROPRIV) e é promovida pelo Instituto de Gestão de Activos e Participações do Estado (IGAPE), representando mais um passo na estratégia do Executivo angolano de abertura do capital de empresas públicas e de dinamização do mercado financeiro nacional.
A operação será realizada através da Bolsa de Dívida e Valores de Angola (BODIVA), presidida por Cristina Giovanna Dias Lourenço, filha do Presidente da República, João Lourenço. A instituição desempenha um papel central no processo de admissão da maior operadora móvel do país ao mercado bolsista.
De acordo com um comunicado da CMC, consultado pela imprensa este sábado, a oferta compreende a venda de 7,5 milhões de acções ordinárias, escriturais e nominativas, correspondentes a 15% do capital social da UNITEL. Cada acção tem um valor nominal de cinco mil kwanzas.
O regulador adianta ainda que está prevista a admissão à negociação, no Mercado de Bolsa da BODIVA, da totalidade das 50 milhões de acções representativas do capital social da empresa, reforçando a liquidez e a transparência associadas à entrada da operadora no mercado regulamentado.
A CMC esclarece, contudo, que o registo da operação assenta exclusivamente em critérios de legalidade, não constituindo qualquer garantia relativamente ao conteúdo da informação disponibilizada, à situação económica e financeira da empresa emitente, à viabilidade da oferta ou à qualidade dos valores mobiliários objecto da operação.
Com mais de 21 milhões de clientes, a UNITEL é uma das maiores empresas de Angola e uma das marcas mais relevantes do sector das telecomunicações, sendo a sua entrada em bolsa considerada um marco para o desenvolvimento do mercado de capitais do país.
Antes da reestruturação da sua estrutura accionista, a UNITEL era detida pela Sonangol, com 50% do capital social, pela Vidatel, empresa associada a Isabel dos Santos, com uma participação de 25%, e pela Geni, sociedade ligada ao general Leopoldino "Dino" Fragoso do Nascimento, igualmente detentora de 25%.
Em Outubro de 2022, o Estado angolano confiscou as participações da Vidatel e da Geni, passando a deter a totalidade do capital social da operadora através da Sonangol. A apreensão integrou uma campanha mais ampla de recuperação de activos promovida pelas autoridades angolanas, que incidiu sobre Isabel dos Santos, filha do antigo Presidente da República, José Eduardo dos Santos, que governou Angola durante 38 anos.
A privatização parcial da UNITEL evidencia a profunda transformação da estrutura accionista da empresa. Consolidada como a principal operadora de telecomunicações do país durante a governação de José Eduardo dos Santos, a UNITEL é actualmente controlada pelo Estado e prepara-se para abrir parte do seu capital aos investidores angolanos. A reserva de 2% das acções para os trabalhadores constitui um dos elementos desta nova fase da operadora.
O IGAPE, responsável pelo processo de privatizações, afirmou que a venda da participação na UNITEL integra um plano mais alargado de alienação de activos públicos, que poderá abranger dezenas de empresas detidas pelo Estado.
Isabel dos Santos, por seu lado, tem afirmado que continuará a contestar judicialmente as decisões das autoridades angolanas. Em várias entrevistas e processos judiciais, sustenta que os seus activos foram expropriados sem o devido processo legal e que as medidas adoptadas contra si têm motivações políticas, visando reduzir a influência da sua família, e não apenas recuperar activos para o Estado. A empresária rejeita todas as acusações e afirma ser alvo de uma perseguição política conduzida pelo Governo do Presidente João Lourenço.
Os seus problemas judiciais têm-se multiplicado nos últimos anos. Em Dezembro de 2023, um tribunal de Londres ordenou o congelamento de mais de 700 milhões de dólares norte-americanos em activos, no âmbito de um litígio com a UNITEL relacionado com alegados empréstimos incumpridos. Em 2025, um tribunal neerlandês considerou-a responsável pelo desvio de cerca de 61 milhões de dólares da Sonangol, a petrolífera estatal que presidiu. Isabel dos Santos continua a contestar judicialmente estas decisões a partir do Dubai, onde reside.
Com a admissão da UNITEL à bolsa, a BODIVA reforça o seu posicionamento como principal plataforma de negociação de valores mobiliários em Angola, consolidando o seu papel no desenvolvimento do mercado de capitais e na diversificação das fontes de financiamento da economia nacional.

