Terça, 06 de Outubro de 2026
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Terça, 06 Outubro 2026 11:22

BNA não identifica onde estão aplicados 1,56 mil milhões USD dos angolanos no exterior

O Banco Nacional de Angola (BNA) continua a identificar apenas cinco destinos do investimento dos angolanos no exterior, deixando sem discriminação cerca de 1,56 mil milhões USD, correspondentes a 29% do stock total. A categoria “Outros” cresceu 24% no primeiro trimestre deste ano, mas o banco central não revela quais são as jurisdições que estão por detrás deste aumento.

Os dados do BNA não permitem, assim, saber quanto do dinheiro investido pelos angolanos fora do País está aplicado em mercados como a Suíça, Malta ou o Dubai, jurisdições onde investidores angolanos têm constituído empresas e estruturas societárias que podem funcionar como plataformas para operações e negócios em Portugal ou em Angola.

Portugal mantém-se como o principal destino conhecido do investimento angolano no exterior, mas perdeu peso no arranque deste ano. Em conjunto com as Maurícias, a Ilha de Man, São Tomé e Príncipe e Cabo Verde, os cinco destinos identificados pelo BNA concentravam 3.299,5 milhões USD no final do primeiro trimestre, o equivalente a cerca de 71% do stock total.

No final de 2025, estes cinco destinos representavam aproximadamente 77% do investimento dos angolanos no exterior. A redução para 71% em apenas três meses significa que outras jurisdições ganharam peso na carteira de investimentos, embora o BNA não detalhe quais.

Stock cresce apenas 5 milhões USD

No conjunto, o stock de investimento dos angolanos no exterior praticamente estagnou no primeiro trimestre. Os dados mostram um aumento de apenas 5 milhões USD, para 5.342,3 milhões USD, o equivalente a um crescimento de 0,1% face aos 5.337,3 milhões USD registados no final de 2025.

A principal alteração ocorreu na composição geográfica desse investimento. Enquanto os cinco destinos identificados perderam peso, a rubrica “Outros” aumentou de forma significativa.

O stock associado a esta categoria passou de 1.259 milhões USD, no final de 2025, para 1.560 milhões USD no primeiro trimestre, uma subida de 301 milhões USD, ou 24%.

Com este aumento, “Outros” passou a representar cerca de 29% do investimento angolano no exterior, contra aproximadamente 24% no final do ano passado.

A ausência de uma discriminação mais detalhada impede, contudo, perceber se este crescimento resulta de uma maior exposição dos investidores angolanos a determinados mercados ou de operações pontuais realizadas através de estruturas sediadas em diferentes jurisdições.

Portugal perde 275 milhões USD

Portugal continua a liderar entre os destinos identificados pelo BNA, mas registou uma redução significativa no primeiro trimestre.

O investimento angolano no país caiu de 3.096 milhões USD no final de 2025 para 2.820 milhões USD no final de Março, uma redução de 275 milhões USD, equivalente a cerca de 9%.

Em consequência, o peso de Portugal no stock total caiu de 57% para 52%, uma redução de cinco pontos percentuais em apenas três meses.

Ainda assim, o mercado português continua a representar mais de metade de todo o investimento dos angolanos no exterior.

A evolução contrasta com a trajectória registada nos anos anteriores. Desde 2021, no período posterior à pandemia, o peso de Portugal vinha a aumentar, tendo o stock de investimento no país disparado 34% em 2025, para 3.096 milhões USD.

Sonangol pode explicar parte dos movimentos

Parte relevante das variações registadas em Portugal poderá estar relacionada com operações da Sonangol.

Segundo informação apurada pelo Expansão junto de uma fonte conhecedora do processo, o aumento do investimento em Portugal registado no final de 2025 esteve associado a recursos gerados noutros países e posteriormente canalizados para investimentos da petrolífera naquele mercado.

Ou seja, a subida do stock não corresponderá necessariamente a novos lucros gerados em Portugal, mas a recursos provenientes de outras geografias que foram posteriormente aplicados no mercado português.

A mesma fonte, conforme avançado pelo Expansão na edição 882, não conseguiu, contudo, precisar se parte desses recursos corresponde a dividendos provenientes da participação indirecta da Sonangol na Galp, através da Esperaza Holding, veículo de investimento sediado nos Países Baixos.

Além das operações relacionadas com a petrolífera, existem também investimentos angolanos no sector imobiliário português.

A ponte entre Angola e Portugal

A importância de Portugal enquanto destino do capital angolano não se limita às grandes operações empresariais. A crescente ligação económica entre os dois países também acompanha o aumento dos fluxos migratórios de Angola para Portugal.

Nos últimos anos, tem-se registado um crescimento da emigração angolana, envolvendo sobretudo jovens e famílias de classe média, com potenciais efeitos na transferência de poupanças e na aquisição de activos no mercado português.

Dados do Afrobarómetro apontam para a insatisfação com as perspectivas profissionais em Angola como um dos factores associados a este movimento migratório.

Ao mesmo tempo, o reduzido volume de remessas enviadas pelos angolanos na diáspora para o país é apontado como um possível indicador de que uma parte destes emigrantes poderá não ter como principal objectivo regressar a Angola.

A geografia que o BNA não mostra

É precisamente na rubrica “Outros” que permanece a principal incógnita sobre a distribuição geográfica do capital angolano no exterior.

O BNA identifica Portugal, Maurícias, Ilha de Man, São Tomé e Príncipe e Cabo Verde, mas não apresenta, no relatório, a composição dos restantes 29% do stock.

Isso significa que, dos 5.342,3 milhões USD investidos pelos angolanos fora do País, cerca de 1.560 milhões USD surgem agregados numa única categoria, sem indicação dos países ou jurisdições onde estão efectivamente aplicados.

A falta de detalhe torna difícil avaliar se a perda de peso dos cinco destinos identificados resulta de uma verdadeira diversificação geográfica dos investimentos ou simplesmente de operações financeiras e societárias realizadas através de outras jurisdições.

Mercados como a Suíça, Malta ou o Dubai são apontados como exemplos de destinos onde investidores angolanos têm constituído empresas que podem funcionar como estruturas intermediárias para negócios em Angola ou Portugal. Os dados publicados pelo BNA, porém, não permitem quantificar a dimensão desses investimentos.

Assim, apesar de o stock global de investimento dos angolanos no exterior praticamente não ter crescido no primeiro trimestre, a sua geografia parece estar a mudar. Portugal continua a ser o principal destino conhecido, mas perde espaço enquanto uma parcela cada vez maior do capital aparece concentrada numa rubrica que o banco central não discrimina.

A questão que permanece é, por isso, onde estão efectivamente aplicados os 1,56 mil milhões USD que o BNA coloca sob a designação genérica de “Outros”.

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