Quarta, 15 de Abril de 2026
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Quarta, 15 Abril 2026 13:17

Um aeroporto para o povo, outro para os “importantes”

O Presidente da República, João Lourenço, volta a ser alvo de críticas quanto à gestão da sua imagem e à coerência das decisões políticas, sobretudo no que diz respeito à utilização de infra-estruturas públicas de grande dimensão.

Em causa está o investimento estimado entre 3 a 4 mil milhões de dólares no Aeroporto Internacional Dr. António Agostinho Neto (AIAAN), uma das maiores obras públicas da história recente de Angola e do continente africano. Apesar da sua dimensão e modernidade, o novo aeroporto continua a não ser plenamente utilizado pelas mais altas figuras do Estado, que mantêm as suas operações no Aeroporto Internacional 4 de Fevereiro, em Luanda.

A situação tem gerado interpretações críticas, sugerindo a existência de uma dualidade no uso das infra-estruturas: por um lado, o AIAAN, apontado como uma estrutura moderna destinada ao público em geral; por outro, o 4 de Fevereiro, que permanece como ponto privilegiado para chefes de Estado, figuras públicas e convidados de relevo.

O cenário torna-se ainda mais sensível perante a previsão de visitas de alto nível, como a do Papa Leão XIV, que, segundo indicações, deverá seguir o mesmo protocolo de outras figuras internacionais, com chegada pelo Aeroporto 4 de Fevereiro. A decisão levanta questões adicionais, tendo em conta que parte da agenda inclui deslocações à Muxima, na província do Icolo e Bengo, onde se localiza o novo aeroporto.

Especialistas e observadores questionam a lógica de mobilidade adoptada, sobretudo face ao investimento realizado. Argumentos como a falta de infra-estruturas de apoio ou serviços adequados no AIAAN levantam outra questão central: por que razão a infra-estrutura foi inaugurada antes de estarem asseguradas as condições necessárias ao seu pleno funcionamento?

Paralelamente, têm sido apontadas incongruências na gestão dos meios públicos, com relatos de deslocações de altos responsáveis em voos privados para províncias como Benguela, em detrimento da utilização da TAAG — Linhas Aéreas de Angola, a companhia de bandeira. Estas deslocações continuam, na sua maioria, a partir do Aeroporto 4 de Fevereiro.

Num contexto marcado por desafios sociais, como cheias e situações de emergência em várias regiões do país, surgem também críticas à postura institucional de alguns responsáveis, acusados de privilegiar acções de visibilidade pública em detrimento de respostas estruturais.

A repetição destes episódios tem alimentado o debate sobre a centralização das decisões e o funcionamento do aparelho do Estado, com analistas a defenderem maior coerência entre o discurso político, os investimentos realizados e a sua efectiva utilização.

Carlos Alberto
Jornalista e Director do Portal “A DENÚNCIA”

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