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Quarta, 14 Setembro 2022 13:15

Angola vai ter de mudar. As eleições a isso obrigam

A tomada de posse de João Lourenço como Presidente de Angola, marcada para 15 de setembro, será o princípio de um ciclo que irá terminar na alternância e obrigará o MPLA a fazer mudanças substantivas na forma de se relacionar com os angolanos.

O cenário pós-eleitoral é mais desafiante do que nunca. Marcado por uma certeza, a de que este será o último mandato de João Lourenço, e uma forte probabilidade, a de a UNITA chegar ao poder em 2027.

1. Os EUA, através do secretário de Estado Antony Blinken, já deram a João Lourenço e ao MPLA os parabéns pela vitória nas eleições de 24 de agosto. Este gesto diplomático, mais do que cortesia, significa que Washington dá como incontestáveis os resultados divulgados pela Comissão Nacional Eleitoral (CNE) e validados pelo Tribunal Constitucional (TC), órgão que não deu provimento às reclamações efetuadas pela UNITA.

Mesmo antes de o TC se pronunciar, a Rússia também já tinha felicitado João Lourenço pela vitória, enquanto a China seguiu o caminho dos EUA, esperado pela ratificação dos resultados pelo TC para dar os parabéns ao MPLA e ao chefe de Estado reeleito, manifestando desde logo o desejo de reforçar os laços de cooperação. Portugal, pelas vozes do Presidente da República e do primeiro-ministro, endereçou igualmente parabéns aos vencedores, um comportamento mimetizado por Espanha.

A legitimidade de João Lourenço para governar é, assim, inquestionavelmente reconhecida pelas potências mundiais (EUA, Rússia e China) e a esmagadora maioria (para não dizer a totalidade) da comunidade internacional.

Isto significa que o espaço de contestação dos resultados eleitorais por parte da UNITA minguou e ainda que o partido do Galo Negro não pode contar com apoios externos legítimos capazes de patrocinar movimentos de insubordinação internos.

A UNITA, tendo em conta este contexto, pode seguir um de dois caminhos: 1) Aceita os resultados (embora e manifestando reservas) e os seus deputados tomam posse; 2) Recusa os resultados e deixa por preencher os lugares conquistados na Assembleia Nacional, aprofundando uma via de conflitualidade com o Governo e o partido rival, o MPLA.

O primeiro é defendido pelos países que reconheceram a vitória do MPLA e investidores estrangeiros, entre outros. A segunda é a preferida de uma ala radical da UNITA e de apoiantes internacionais (declarados e incógnitos) que, por razões diversas, projetam um cenário de confrontação do qual esperam tirar dividendos.

Todos os pontos de vista são defensáveis. Todavia, há uma certeza: o presidente da UNITA só terá futuro político se optar pela primeira via.

2. O Presidente reeleito, João Lourenço, está pressionado, tal como Adalberto da Costa Júnior, embora por motivos diferentes. As eleições de 24 de agosto mostraram que os deserdados de José Eduardo dos Santos ainda têm muito poder no seio do MPLA e que o partido se fraturou, muito por conta da narrativa do combate à corrupção.

A campanha eleitoral revelou um MPLA desmotivado e que está completamente divorciado das novas formas de comunicação com os angolanos. Controlar o Jornal de Angola, a TPA ou a RNA só serve para convencer os que estão convencidos e tem ainda a desvantagem de ser uma arma que pode ser usada para criticar o governo e questionar as suas promessa de mudança de gestão da coisa pública. Em contrapartida, a UNITA afirmou-se nas redes sociais como um partido capaz de compreender os anseios e mobilizar os angolanos para os desafios do futuro.

Entre as elites existe um certo cansaço em relação ao MPLA e, consequentemente, uma vontade de mudança que se plasmou no resultado obtido pela UNITA. Adalberto da Costa Júnior não está amarrado por um passado militar, é mais desenvolto no discurso e tem uma capacidade de sedução pela via da oratória, qualidade que falta a João Lourenço.

3. João Lourenço vai ter o seu último mandato como Presidente e estes cinco anos serão um verdadeiro teste às suas promessas de mudança. Para já, conta com uma conjuntura económica favorável e um quadro propício ao crescimento do investimento estrangeiro, capaz de criar emprego, um dos maiores problemas que o governo angolano enfrenta.

A continuação do processo de privatizações, além de gerar receita, solidifica uma narrativa de abertura económica que é do agrado de organizações internacionais como o FMI.

Há quem diga que vão ser cinco anos perdidos, passados a sarar feridas da debacle eleitoral e a saciar o apetite daqueles que antecipam um fim de ciclo. João Lourenço tem o desafio de provar que quer mesmo fazer diferente.

4. A UNITA é vista como o partido que vencerá as eleições de 2027. Adalberto da Costa Júnior tem de capitalizar esta convicção generalizada e criar uma espécie de governo-sombra que lhe permita ocupar espaço mediático. Em paralelo, necessita de refrear os ímpetos no interior do partido daqueles que pretendem acelerar a mudança.

Para dar solidez a uma estratégia capaz de suportar cinco anos, Adalberto da Costa Júnior terá de pressionar João Lourenço e o seu Governo no sentido de concretizar as autárquicas, eleições que vão permitir dar início a uma partilha de poder entre o MPLA e a UNITA.

Uma exigência que a comunidade internacional certamente apoiará, na medida em que também ela vê com bons olhos a alternância.

Jornal de Negócios

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