Sexta, 10 de Abril de 2026
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Sexta, 10 Abril 2026 15:24

Amicus de veritas sed: a verdade como retórica e a mentira como método na política angolana

Há expressões que, de tanto repetidas, perdem densidade e tornam-se ornamentos vazios. “Amicus de veritas sed”, ser amigo da verdade é uma delas. No plano ideal, remete a um compromisso ético inegociável, no plano real, sobretudo na arena política angolana, soa cada vez mais como um artifício discursivo, invocado não para afirmar a verdade, mas para legitimá-la, ainda que seja construída, distorcida ou conveniente.

O mesmo se pode dizer do adágio bíblico: “conhecerás a verdade e a verdade vos libertará”. A frase, carregada de força moral, foi capturada pelo vocabulário político e transformada em promessa recorrente. Porém, a experiência concreta mostra que, entre a verdade proclamada e a liberdade prometida, instala-se um hiato profundo preenchido, muitas vezes, por narrativas que mais iludem do que esclarecem.

A política angolana tem sido marcada por uma prática recorrente, a transformação da verdade em produto. Programas de governação, discursos oficiais e campanhas eleitorais constroem um país projectado de crescimento, prosperidade e inclusão, que raramente coincide com o país vivido pela maioria dos cidadãos.

Não se trata apenas de mentir, no sentido clássico. Trata-se de algo mais sofisticado, produzir versões da realidade que sejam plausíveis o suficiente para convencer, mas vagas o suficiente para não serem cobradas. Promessas são apresentadas como inevitabilidades históricas, falhas estruturais são reinterpretadas como etapas transitórias, e o futuro é constantemente mobilizado como álibi para o presente.

Neste contexto, a verdade deixa de ser um critério de avaliação e passa a ser um instrumento de gestão da percepção pública.

O maior risco não reside na mentira evidente, mas naquilo que se identifica como verdade autorizada, aquela que se impõe como oficial, incontestável e, por isso mesmo, imune ao escrutínio.

O cidadão angolano é frequentemente colocado numa posição de receptor passivo de verdades prontas, elaboradas por uma elite política que monopoliza os meios de produção simbólica. O resultado é uma sociedade onde a crítica é substituída pela adesão, e a dúvida, pela repetição.

A verdade deve ser permanentemente interrogada, e não simplesmente consumida. O verdadeiro “amigo da verdade” não é aquele que a aceita, mas aquele que a questiona, sobretudo quando ela vem revestida de autoridade.

Um dos traços mais evidentes da política angolana contemporânea é a persistência de uma economia da promessa. Os vendedores de sonhos, figuras recorrentes no cenário político operam com uma lógica simples: oferecer ao eleitorado uma visão de futuro suficientemente sedutora para compensar as carências do presente.

Esses sonhos, no entanto, raramente são acompanhados de mecanismos claros de realização. Funcionam mais como dispositivos de esperança do que como projectos concretos. E, nesse processo, a verdade é continuamente adiada, não é aquilo que se verifica hoje, mas aquilo que se promete para amanhã. O problema é que esse adiamento permanente gera um ciclo de desresponsabilização. Se a verdade está sempre no futuro, nunca pode ser plenamente confrontada no presente.

É aqui que o adágio “a verdade vos libertará” revela sua dimensão mais problemática. Na prática política angolana, a verdade não tem libertado, tem sido usada para justificar, adiar e, por vezes, encobrir.

A libertação prometida torna-se, assim, uma miragem. O cidadão é convidado a acreditar que, ao aderir à narrativa oficial, está a participar de um processo de emancipação. Mas, na realidade, pode estar apenas a reforçar estruturas que limitam sua própria autonomia crítica.

Diante desse cenário, a máxima “amicus de veritas sed” exige uma reinterpretação radical. Não basta proclamar amizade à verdade, é preciso redefinir o que isso significa num contexto onde a verdade é constantemente mediada por interesses políticos.

Essa amizade deve assumir a forma de vigilância crítica. Ser amigo da verdade é desconfiar dela quando se apresenta como absoluta, questioná-la quando se torna conveniente e recusá-la quando serve mais ao poder do que à justiça.

Se é verdade que o poder instituído tem feito da verdade um instrumento de gestão política, não é menos verdade que a oposição angolana tem falhado, de forma recorrente, em se afirmar como alternativa ética no uso da verdade.

Grande parte da oposição construiu o seu capital político denunciando, legitimamente as falhas do governo. Contudo, essa denúncia raramente é acompanhada por um compromisso consistente com a verdade enquanto prática. Em muitos casos, substitui-se uma narrativa oficial por uma contra-narrativa igualmente simplificadora, onde a complexidade da realidade é reduzida a slogans, indignações selectivas e promessas maximalistas.

A oposição, que deveria ser guardiã do escrutínio, acaba por reproduzir vícios que critica. Exagera diagnósticos para amplificar o descontentamento, simplifica soluções para torná-las politicamente vendáveis, promete rupturas imediatas sem apresentar bases estruturais viáveis.

O resultado é um empobrecimento do debate público. Em vez de disputar a verdade com rigor, disputa-se a emoção com eficácia. Mais grave ainda, é que parte da oposição tornou-se refém da lógica do “quanto pior, melhor”, onde o agravamento das condições sociais é explorado como oportunidade política. Nesse cenário, a verdade deixa de ser um compromisso e passa a ser um recurso estratégico, tal como no discurso governamental.

Assim, cria-se um círculo vicioso, o governo manipula a verdade para se manter, a oposição distorce a verdade para chegar ao poder.

E o cidadão, no meio desse confronto, é convidado a escolher não entre verdade e mentira, mas entre versões concorrentes de uma mesma realidade fragmentada.

A crise não é apenas de verdade, mas de relação com a verdade. Enquanto ela continuar a ser tratada como um recurso estratégico, e não como um compromisso ético continuará a servir mais para governar do que para libertar.

Talvez, no contexto angolano, seja necessário inverter a lógica dominante,

não é a verdade proclamada que libertará o povo, mas a capacidade do povo de confrontar, desmascarar e reconstruir essa verdade.

Ser “amicus de veritas” hoje, mais do que nunca, é recusar a ingenuidade e assumir a responsabilidade de pensar contra as evidências impostas.

Por: Adão Xirimbimbi “AGX”

Jurista e Investigador

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