Domingo, 05 de Abril de 2026
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Domingo, 05 Abril 2026 14:47

Um conselho à cantora Noite e Dia — de quem também sou fã!

Até hoje, não consigo compreender por que razão a cantora Noite e Dia ingressou na Polícia. Trata-se de um talento nato, que arrasta multidões — uma verdadeira “máquina” de gerar receitas, com um público sólido a nível nacional e internacional, composto maioritariamente por jovens e crianças, o que garante a sustentabilidade da sua carreira e da sua fonte de rendimento.

O que a Noite e Dia conquistou não foi por intermédio da Polícia. Muito pelo contrário: alguns programas da própria instituição tornaram-se mais conhecidos por sua causa.

Tenho ouvido muitos jovens dizerem que trabalhar no Estado é mais seguro. No entanto, aquilo que parece segurança, muitas vezes não passa de uma limitação.

Vejamos:

A Polícia rege-se por uma tabela salarial e por um conjunto de regalias associadas aos cargos, com remuneração mensal fixa. Acresce ainda a Lei n.º 10/25 (Regime Disciplinar do Agente da Polícia Nacional) e o regulamento de carreira, que levantam a seguinte questão: será que permitem, de forma plena, o exercício de actividades remuneradas em paralelo com a função policial?

Por outro lado, tendo em conta a visibilidade da Noite e Dia, qualquer ascensão na carreira sem respeitar os critérios formais poderá gerar controvérsia pública.

A Administração Pública é regida por normas rigorosas, como a Lei da Probidade Pública, o Código do Procedimento Administrativo e diplomas que responsabilizam os agentes públicos por acções ou omissões no exercício das suas funções. Qualquer falha pode ter consequências legais.

Por outro lado, foi através da música que a Noite e Dia alcançou reconhecimento nacional e internacional. Os seus espetáculos são, regra geral, casa cheia; as suas músicas têm forte presença na rádio, televisão, redes sociais e eventos.

Mesmo que, com o tempo, viesse a atingir cargos mais elevados na hierarquia policial — respeitando a progressão normal — dificilmente conseguiria, em dez anos, alcançar os mesmos resultados que obteve através da música.

Enquanto a Polícia oferece uma remuneração mensal, a música e a exploração da sua marca proporcionam rendimentos frequentes — diários e semanais.

O caso do cantor norte-americano Rick Ross é ilustrativo: deixou a carreira como agente penitenciário para se dedicar à música, motivado pelas oportunidades existentes. No presente caso, observa-se o percurso inverso.

Se a motivação for um sonho pessoal, importa questionar: será possível conciliar, de forma sustentável, as duas realidades — carreira policial e carreira artística? Num contexto de economia de mercado, os sonhos devem também ser sustentáveis do ponto de vista financeiro.

Um dos grandes desafios dos artistas em Angola é a expectativa de que o Governo resolva questões que, em muitos casos, dependem da própria iniciativa privada. O Estado tem vindo a criar enquadramentos legais favoráveis, mas muitos artistas aguardam soluções externas, incluindo apoios financeiros regulares.

Muitos esperam pelo momento ideal, quando, na verdade, esse momento já existenas oportunidades atuais, nos cachês recebidos, que muitas vezes não são reinvestidos, e na ausência de propostas concretas dirigidas às instituições públicas para o fortalecimento do sector.

Pessoalmente, observo muitos comentários e entrevistas, mas raramente se ouve falar de propostas estruturadas apresentadas e eventualmente rejeitadas.

Vivemos numa economia de mercado, onde a Administração Pública actua com base no princípio da legalidade. O quadro legal existe — e, em muitos casos, é favorável.

O que falta é a integração do ecossistema artístico para benefício próprio. O Estado pode desempenhar um papel relevante, mas não é o principal agente de execução. Num cenário equilibrado, o Estado poderá contribuir com uma parte menor (por exemplo, 10%), enquanto os próprios artistas e empresários assumem a maior responsabilidade (90%). Não é coerente exigir mais de quem tem menor responsabilidade na execução.

No sistema capitalista, o motor principal é o sector privado.

Por outro lado, é frequente ouvir que os artistas deveriam ser mais valorizados pelo Estado, sem que se explique de que forma isso se enquadra numa economia de mercado, onde o papel do Estado é, essencialmente, regulamentar e fiscalizar.

A Noite e Dia é uma marca forte que, em vez de ser apenas valorizada, pode estar a ser subaproveitada — e oportunidades desta dimensão podem não surgir novamente.

Importa questionar: não estará a desperdiçar uma oportunidade única de capitalizar plenamente tudo aquilo que construiu?

O momento mais favorável na música — e noutras actividades — é quando existe um público consumidor activo, sobretudo jovem. O desafio está em estruturar esse segmento e criar um verdadeiro ecossistema.

Hoje, a Noite e Dia pode alcançar, em um ano, resultados que a carreira na Polícia poderá demorar uma década a proporcionar.

Num país de oportunidades reais, o maior risco não é tentar — é abandonar aquilo que já funciona para abraçar uma segurança que limita o crescimento.

Por: Tomás Alberto

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