Domingo, 14 de Julho de 2024
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Terça, 09 Julho 2024 14:38

O único legado possível de João Lourenço

O secretariado do Bureau Político do MPLA abriu a porta à agitação que agora anda a todo o vapor. A cúpula mais restrita do partido no poder orientou o seu Comité Central a convocar um Congresso Extraordinário para Dezembro próximo.

O problema ou, pelo menos, o factor de inquietação está no pretexto invocado para a realização da reunião extraordinária. Quase ninguém acredita na balela de que a análise dos 50 anos de governação do MPLA, que coincidem com os 50 anos de Independência do país, é justificação bastante para preencher os critérios impostos pelos estatutos do MPLA.

Determinam as regras do definhado maioritário que os Congressos Extraordinários são convocados perante situações urgentes que exigem esclarecimentos inadiáveis. O mais óbvio que se encaixa nestes critérios é a substituição do líder ou a renovação da estrutura de direcção. Em 2019, João Lourenço teve de recorrer a esse expediente quando se incompatibilizou com Álvaro de Boavida Neto. O então secretário-geral fez declarações críticas à perseguição que João Lourenço movia contra José Eduardo dos Santos. João Lourenço não gostou. Arranjou um Congresso Extraordinário às pressas e substituiu-o por Paulo Pombolo.

A situação hoje é completamente diferente. Nada sinaliza que João Lourenço esteja desavindo com o seu secretário-geral ou com a sua vice-presidente ao ponto de promover um congresso para afastá-los. Talvez este cenário se equacione mais para outros membros do Bureau Político ou do Comité Central que, por esta altura, querem o seu presidente o mais distante possível.

Colocadas de parte estas hipóteses, a questão central vira-se para o próprio presidente do MPLA. Por muito que persistam as práticas de arrogância, de ódio, de vingança e de perseguição, ancoradas num poder ilimitado que se estende dos Serviços de Informação aos Tribunais, João Lourenço não pode alimentar a ilusão de que mantém um domínio inquestionável. As anuncia- das intenções de figuras relevantes que pretendem sentar-se no cadeirão máximo do partido são disso prova.

A dois anos do Congresso Ordinário, o tal que de facto tem competências de renovação cíclica de mandatos, Higino Carneiro confirmou que quer chegar a presidente do MPLA. Para um partido que se alimenta com o culto absoluto ao líder da vez, a pretensão antecipada de Higino Carneiro não pode ser
interpretada de outra forma. É uma mensagem clara de alas não negligenciáveis no MPLA de que João Lourenço é o maior problema do partido e, claro, do país. Tão relevante quanto isto, João Lourenço fica necessariamente pressionado a abrir o jogo quanto ao futuro imediato do MPLA. E, verdade seja dita, não lhe existem caminhos fáceis.

Se em Dezembro decidir enfiar a cabeça na areia, feito uma avestruz, ou assobiar ao lado, deixando tudo para 2026, vai adensar a imprevisibilidade e acirrar os ânimos no MPLA, com repercussões incontornáveis na sociedade. Se optar por impor um candidato único da sua preferência, corre o risco de fazer implodir as paredes do "Kremlin'. Sobretudo se se tratar de uma figura que não caia nas graças da ala 'conservadora'.

Feitas as contas, a João Lourenço resta apenas uma opção decente. Deixar o seu partido fluir com serenidade e abertura no tema da sucessão. Permitir que as múltiplas candidaturas se perfilem e que os militantes escolham livre- mente o que lhes parecer a melhor solução possível. Sem perseguições. Sem intimidações. Sem manipulações. Sem chantagens. Se isto ocorrer, será seguramente o seu maior legado na sua trágica passagem pela liderança do seu MPLA e do país. Valor Económico

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