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Terça, 30 Novembro 2021 11:14

Os Congressos do MPLA e da UNITA ante as dinâmicas étnicas e regionais

Na primeira quinzena de Dezembro, teremos, um atrás do outro, os Congressos da UNITA e do MPLA, os dois maiores partidos do país. Embora a liderança dos dois partidos esteja resolvida com candidaturas únicas de Adalberto Costa Júnior e de João Lourenço, respectivamente, há todo o interesse em verificar que outras questões estão em jogo, para além dos líderes e das propostas de Governo.

Por Ismael Mateus

Um dos problemas da actualidade, na vida interna dos partidos, é o modo como se acomodam os interesses dos grupos etnolinguísticos e de representação regional nas direcções políticas desses dois partidos, nomeadamente o Comité Central e o Bureau Político, no MPLA, a Comissão Política e o Comité Permanente da UNITA Embora os dois partidos tenham cada vez mais poderes concentrados no líder, é nessas estruturas directivas que se procuram estabelecer os equilíbrios políticos de ordem étnica, representatividade regional e até racial.

Tanto o MPLA como a UNITA têm procurado aumentar as suas bases de apoio. No MPLA, há a tendência de redução da forte influência do eixo Ambundu, procurando que a direcção do partido seja mais proporcional ao número de militantes, maioritariamente pertencentes ao grupo étnico linguístico Ovimbundu. Há, por isso, uma expectativa de que os ovimbundus, que são maioritários no partido, possam estar suficientemente representados não só em termos de número de integrantes, mas também em termos qualitativos ou seja pela qualidade dos cargos que ocupam.

A mesma preocupação ocorre com o grupo Bakongo. Nos últimos anos, os bakongos têm perdido influência, depois de terem tido tempos diferentes no passado com figuras históricas como Pascoal Luvualu, Ambrósio Lukoki, Ludi Kissasunda e outras. Actualmente, sobretudo com a morte de promissor Sérgio Luther Rescova, e para além de Paulo Pombolo, actual secretário geral, alimenta-se a expectativa do aparecimento de nomes mais sonantes e em cargos de igual destaque na estrutura partidária.

Na UNITA, os problemas são mais ou menos parecidos, embora o partido esteja regionalmente mais concentrado do que o MPLA. Maioritariamente, os militantes da UNITA são ovimbundus embora os bakongos e os ambundus estejam em crescimento. Entre os ovimbundus, os problemas colocam-se na manutenção ou não de uma tradição de domínio do eixo do Bié contra uma ascensão natural do eixo do Huambo/Bailundo. A chegada ao poder de Adalberto Costa Júnior e a sua Frente Patriótica vem agudizar as contradições internas já que abre a proposta política da UNITA a figuras da sociedade civil ou do Bloco Democrático que no imaginário de muitos representam também o perfil do "crioulo” que a UNITA combateu no passado.

Por força da necessidade de projectar uma imagem de um partido mais nacional e mais aberto aos diferentes grupos etnolinguísticos, a próxima direcção da UNITA terá necessidade de dar espaço e visibilidade concreta (e não do tipo cargos corta fitas) a membros representantes de grupos não ovimbundus. Embora alguns opinion makers digam que a representatividade étnica e regional não tem bastante peso no nosso processo eleitoral, os grupos etno-linguísticos consideram-se bem ou mal acolhidos em função dos lugares e da qualidade dos cargos atribuídos aos seus filhos. A questão da etnicidade e do racismo são duas realidades que acompanham os actuais partidos políticos desde a sua génese.

A célebre reestruturação do Comité Director do MPLA em 1962 e as desavenças entre Agostinho Neto e Viriato da Cruz tiveram por base esses problemas. Para protagonizar a sua dissidência da FNLA para criar a UNITA, Jonas Savimbi argumentou com o tribalismo dos dirigentes da FNLA que eram, quase em exclusivo, de origem Bacongo. Infelizmente a UNITA não conseguiu distanciar-se dessa mesma caracterização e acabou sendo rotulada também como um partido dos ovimbundos, daí a expectativa de que com Adalberto Costa Júnior se acentue ainda mais o processo de "destribalização” da UNITA.

Também cresce nos dois partidos a expectativa de melhor representatividade junto dos grupos etno-linguísticos Cokwe e Nganguela. O MPLA procura manter o grande domínio nessas áreas, mas a UNITA tem vindo a restabelecer as suas relações históricas com a zona do Leste, onde foi criada. Também querem ter figuras de proa originárias do Leste, com poder e influência políticas nos dois partidos. É também aqui que, nestes dois congressos, os partidos políticos se vão preparar para as eleições. Ao contrário do que muitos políticos dizem, acreditamos que o voto étnico terá grande influência e ele dependerá muito da capacidade de apresentar candidatos e dirigentes em quem as comunidades se revejam.

Embora se aponte o factor Adalberto Costa Júnior por ser mestiço, francamente não nos parece que isso venha a ter grande influência. ACJ não vai mobilizar mais ou menos por ser mestiço. No nosso processo já tivemos líderes e candidatos a Presidente mestiços como Anália de Victória Pereira, por exemplo, e o MPLA sempre teve entre os seus dirigentes e fundadores mestiços. Não nos parece que esse facto tenha o peso que lhe quer ser atribuído.

Estamos convencidos de que a questão da representatividade terá mais impacto do que a pele mais clara ou mais escura. Curioso também será verificar a integração de religiosos e figuras públicas. Nas ultimas eleições, tanto o MPLA como a UNITA juntaram às suas listas e dirigentes membros da igreja e nomes conhecidos da sociedade. Veremos qual o lugar e a importância política que a UNITA vai dar aos revus. A dúvida é saber se integrá-los como dirigentes do partido ou candidatos a deputados atrai tantos votos dos eleitores como se espera ou se a sociedade tem sobre eles um olhar mais como vozes inconformadas do que como actores políticos. Conjecturas e expectativas. Dezembro é já amanhã. Veremos. JA

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