Poucos dias depois de se celebrar o Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres, a 25 de Novembro, os indicadores revelam que a população jovem feminina continua a ser a mais vulnerável aos diferentes tipos de agressão registados na capital do país. Apesar das campanhas de sensibilização promovidas pelas autoridades e organizações da sociedade civil, o número de casos mantém uma tendência crescente, expondo uma realidade que exige respostas mais firmes e abrangentes.
A maioria das vítimas são adolescentes e jovens mulheres residentes em áreas periurbanas, onde a vulnerabilidade social e económica agrava os riscos.
De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), a violência baseada no género inclui actos que provocam danos físicos, emocionais ou mentais, desde ameaças e intimidações até à privação de liberdade, independentemente de ocorrerem em espaços públicos ou privados.
No contexto luandense, estes comportamentos reflectem-se principalmente em agressões físicas e episódios de controlo e intimidação, que afectam sobretudo jovens entre os 15 e 30 anos. A análise dos dados reforça que a violência praticada por parceiros ou ex-parceiros continua a ser uma das principais causas de denúncias.
A violência sexual, por sua vez, permanece como um dos fenómenos mais silenciosos, mas que afecta de forma alarmante jovens mulheres que, muitas vezes, enfrentam dificuldades para denunciar ou romper ciclos de abuso.
Viana é o epicentro
Luanda está, actualmente, dividida administrativamente em 16 municípios. Segundo o Gabinete Provincial da Acção Social, Família e Igualdade do Género, ao longo dos seis meses do ano em curso, entre as 16 municipalidades, Viana é a região com maior número de registos.
Em 2025, os dados apontam para 412 casos no primeiro semestre a nível do município de Viana. De acordo com dados estatísticos anteriores, o município é, desde 2016, líder em actos de violência contra a mulher.
A título de exemplo, nesse ano, a Direcção da Família e Promoção da Mulher de Viana registou 1.770 casos. Segundo a mesma fonte, em 2016 foram solucionados 1.694 casos e outros 76 foram encaminhados ao tribunal. A maior parte das denúncias foi feita por mulheres. Entre as queixas, constavam incumprimento de mesada, fuga à paternidade, abandono do lar, privação de bens, ofensas morais, chantagem, ameaça de morte e adultério.
A reportagem do Jornal Metropolitano de Luanda apurou que os bairros que mais casos de violência registam são Capalanga, Km-30, Regedoria e Boa-Fé, município de Viana, em Luanda..
Números em Luanda
Entre os meses de Janeiro e Junho deste ano, 233 mulheres foram vítimas de violência doméstica em Luanda, resultando em mais de 90 mortes cometidas por parceiros durante desentendimentos no lar, segundo dados revelados pela Polícia Nacional (PN).
Em entrevista ao Jornal Metropolitano de Luanda, a Presidente da Rede Mulher Polícia de Angola (REMPA), subcomissário Lisbela Silva, informou que os casos incluem agressão física, abandono familiar, abuso sexual, violência patrimonial e violência sexual.
O município de Viana foi o mais afectado, com os suspeitos a serem responsabilizados criminalmente. Lisbela Silva destacou que a rotina actual das famílias dificulta o acompanhamento dos filhos, devido ao trabalho e à falta de tempo em casa, o que pode contribuir para comportamentos de risco entre adolescentes, incluindo o consumo precoce de álcool, disse a oficial superior da Polícia Nacional.
A responsável da REMPA, também, alertou para as questões de ciúmes e desigualdade de oportunidades entre homens e mulheres, que podem resultar em agressão física e psicológica. Ela reforçou a importância do diálogo familiar, do respeito pelos mais velhos e da união entre os membros da família como forma de prevenção à violência doméstica.
A Rede Mulher Polícia de Angola concluiu que a prevenção da violência doméstica depende da união familiar, do diálogo e do respeito intergeracional, bem como de medidas conjuntas entre órgãos governamentais e a sociedade civil para protecção das mulheres e crianças.
Agressões físicas no ranking
Com uma população maioritariamente jovem e feminina, segundo o Instituto Nacional de Estatística, Luanda apresenta condições sociais que potenciam a exposição diária a diferentes formas de violência. As zonas periurbanas, caracterizadas por fragilidades no acesso a serviços públicos, são onde as jovens mulheres se tornam mais susceptíveis a maus-tratos e agressões.
De Janeiro a Junho deste ano, o Gabinete Provincial da Acção Social, Família e Igualdade do Género registou oitenta e três (83) casos de agressões físicas, sendo a maioria das vítimas jovens do sexo feminino. No mesmo período, foram reportados 21 casos de violência sexual, que resultaram na detenção dos autores.
Os números reforçam a necessidade urgente de políticas públicas mais eficazes, programas de apoio comunitário e acções educativas direccionadas especialmente à juventude feminina, que continua a pagar o preço mais alto da violência baseada no género em Luanda.
Psicóloga alerta para as marcas profundas e duradouras
O avanço da informação e das campanhas de sensibilização tem permitido que muitas mulheres compreendam os seus direitos e busquem ajuda frente à violência doméstica. Segundo a psicóloga Beatriz Valente, que atende casos de violência física, psicológica, emocional, patrimonial e sexual, as consequências podem ser profundas e duradouras.
“Muitas chegam ao consultório com a auto-estima fragilizada, ansiedade, depressão, medo constante, sentimentos de culpa e perda de confiança em si mesmas e nos outros. É uma violência que marca o corpo, a mente e a identidade”, explica a especialista.
Abordagem terapêutica
Ao receber uma paciente, a primeira acção da psicóloga é garantir acolhimento e segurança emocional, criando um espaço sem julgamentos. Em seguida, realiza-se uma avaliação da gravidade da situação, identificando riscos, o estado emocional, convivência com o agressor e necessidades imediatas.
Os atendimentos frequentemente iniciam com regulação da ansiedade, validação dador e reforço de que a vítima não é culpada pelo que vive. A partir daí, é construído um plano de protecção e recuperação emocional,accionando redes de apoio quando necessário.
A psicóloga aconselha as famílias e pessoas singulares a consulatarem os especialistas, quando necessário, para lidar com situações que envolvam a sua saúde mental.

