Diversos estudos sobre segurança alimentar, bem como relatórios da Organização Mundial da Saúde (OMS), indicam que alimentos comercializados em ambientes informais podem apresentar riscos significativos de contaminação quando manipulados e armazenados em condições inadequadas. A capital angolana, devido à sua alta densidade populacional e às limitações estruturais, enfrenta uma das maiores cargas per capita de doenças de origem alimentar no país.
Entre os principais riscos identificados estão a presença de microrganismos patogênicos, como Escherichia coli (E. coli), Salmonella e Staphylococcus aureus, frequentemente encontrados em carnes, peixes e vegetais frescos vendidos em barracas ao ar livre, sobre o lixo ou ao lado de lixeiras. A contaminação pode ocorrer em diferentes etapas: no transporte, na manipulação, no armazenamento ou na exposição prolongada ao calor, sem refrigeração adequada.
Grande parte das praças funciona sem infraestrutura básica. A ausência de água potável, sistemas de saneamento, câmaras frigoríficas e gestão eficiente de resíduos cria um ambiente propício para a proliferação de bactérias e outros agentes contaminantes. Em muitos casos, os alimentos são expostos próximos a lixo acumulado, esgotos a céu aberto e pragas, como moscas e roedores, aumentando significativamente o risco de contaminação cruzada.
Outro fator preocupante é a falta de formação adequada em higiene alimentar para muitos vendedores. A inexistência de instalações para lavagem das mãos e utensílios, aliada à manipulação simultânea de dinheiro e alimentos, contribui para a disseminação de patógenos. Esses fatores combinados elevam o risco de surtos de doenças gastrointestinais.
As consequências para a saúde pública são graves. Milhões de casos de diarreia, infeções intestinais e intoxicações alimentares são registrados anualmente em Angola. Em situações mais severas, essas doenças podem levar à desidratação extrema, complicações sistêmicas e até à morte, especialmente entre crianças, idosos e pessoas com o sistema imunológico comprometido.
Entretanto, é essencial analisar essa realidade com equilíbrio. Os mercados informais não são apenas locais de risco — eles são também pilares da segurança alimentar urbana. Para muitas famílias de baixa renda, são a única fonte acessível de alimentos frescos e a principal oportunidade de geração de renda. A problemática da contaminação não deve ser atribuída exclusivamente aos vendedores, mas compreendida como reflexo de desafios estruturais mais amplos, como pobreza, urbanização acelerada, falta de infraestrutura pública e fiscalização insuficiente.
Portanto, enfrentar o problema exige uma abordagem integrada. Investimentos em infraestrutura sanitária, fornecimento de água potável, programas de capacitação em boas práticas de higiene e regulamentação eficaz podem reduzir drasticamente os riscos sem comprometer a importância social e econômica das praças. A melhoria das condições não apenas protegerá a saúde pública, mas também fortalecerá a confiança da população nesses espaços vitais.
Garantir alimentos seguros nas praças de Luanda não é apenas uma questão de fiscalização, mas de políticas públicas inclusivas que promovam dignidade, saúde e desenvolvimento sustentável para todos.

