Terça, 31 de Janeiro de 2023
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Quinta, 10 Novembro 2022 11:47

Oito em cada 10 obras no País estavam paralisadas no I semestre

O aumento do preço dos materiais de construção civil, a falta de crédito e a fraco poder de compra, estão a afectar negativamente o sector imobiliário com a paralisação de obras. Nem mesmo a valorização do Kz face às principais moedas estrangeiras ajudou a equilibrar os preços dos materiais de construção.

Oito em cada 10 obras em curso no País estavam paralisadas no primeiro semestre do ano, segundo o Inquérito Trimestral de Avanço e Acompanhamento dos Edifícios em Processo de Construção (ITAEPC), do Instituto Nacional de Estatística. O documento avança que no período em análise foram visitadas 4.284 obras em todas as províncias, das quais 935 estavam em processo de construção e 3.349 estavam paralisadas.

Este relatório do INE é um indicador do estado do sector da construção no País, que há muito que está em crise, devido, sobretudo, à alta dos preços do material de construção mas também à falta de crédito e à perda do poder de compra dos angolanos, factores que são apontados pelos especialistas como as principais razões para a paralisação de obras a nível nacional. "Não há crédito e sem dinheiro não se constrói. E isto está a matar o sector imobiliário", disse ao Expansão Cleber Corrêa, da Associação dos Profissionais Imobiliários de Angola (APIMA)

Para se ter uma ideia dos preços, comparando com os primeiros seis meses do ano passado, os materiais de construção encareceram quase 21%. Ou seja, construir no I semestre de 2021 era mais barato do que no I semestre de 2022. Esta subida no custo do material de construção foi liderada pelos grupos da "madeira e contraplacado" que registaram os maiores aumentos (28%), seguidos pelos "aço" e "vigas, vigotas e ripas"(26%). Os produtos sintéticos, tubagens, acessórios de plásticos e alumínio", engrossam a lista dos produtos que mais encareceram no I semestre deste ano face a 2012.

E nem mesmo a valorização do Kz face ao dólar e ao euro travaram a subida dos preços do material de construção, o que num país que apenas no ano passado quebrou um ciclo de cinco anos de recessão económica, com uma perda brutal no poder de compra da população, impede a dinamização do sector da construção. "É difícil construir assim. Por mais que se planeie, se os preços não estiverem estabilizados fica difícil cumprir com o projectado inicialmente", disse um construtor por conta própria.

"Grande parte deste material ainda continua a vir de fora. Não é verdade que o mercado nacional já produz para as necessidades do sector da construção civil. Há situações em que determinados materiais sobem de preços de um dia para o outro e não há nenhuma entidade que trava isso", rematou o construtor com mais de 10 anos de experiência.

A situação agrava quando o construtor depende do seu salário para edificar a sua moradia, o que acaba por obrigar a suspender as obras. "Estou a fazer esta casa há três anos. Pensei que poderia acabar em menos de dois anos, mas ainda estou aqui", disse ao Expansão Bartolomeu Silva. Funcionário público há 18 anos, afecto às finanças, escolheu a zona do Benfica para a construção da sua residência e agora vê-se a braços para a sua conclusão devido aos seus rendimentos que não conseguem acompanhar a escalada dos preços do material de construção.

"O preço sobe quase todos os dias. O salário não consegue acompanhar este ritmo. Sem esquecer que o custo de vida no geral aumentou também. Perante esta situação tive que paralisar a construção e adiar o sonho. Mas tenho fé que com mais algum tempo consigo acabar. Pode não ser o que idealizei, mas tenho que acabar", concluiu.

A província de Benguela liderou o ranking das localidades com mais obras paralisadas no I semestre, totalizando 683, já no sentido inverso, Bengo foi a província com menos obras paradas. De acordo com o ITAEPC, olhando para a finalidade do tipo de obra, a habitação domina o tipo de construção, uma mostra clara da necessidade habitacional que os cidadãos ainda vivem. Neste período, 87% das 4.284 obras tinham como fim a habitação. Expansão

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