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Sexta, 02 Fevereiro 2024 17:01

Ativistas de Cabinda criticam silêncio da comunidade internacional perante “repressão”

Ativistas em Cabinda criticaram hoje o silêncio da comunidade internacional perante a “repressão” e “limitações à liberdade de expressão”, queixando-se de sofrer represálias e ser associados à oposição ao regime angolano.

Em declarações à Lusa, Arão Bula Tempo, advogado e defensor dos Direitos Humanos, lamentou que, “infelizmente, a comunidade internacional, com os interesses económicos, não consiga ter uma posição adequada para intervir sobre o problema de Cabinda”.

O ativista afirmou que a situação “cada vez mais se vai deteriorando” e criticou a “concentração de tudo e de nada no executivo”, que não beneficia a população, que “é tida como da oposição”.

Denunciou perseguições e prisões arbitrárias “e outros comportamentos cruéis”, acrescentando que as autoridades angolanas tratam Cabinda como sua “propriedade privada”.

Bula Tempo previu que os ativistas que se vão encontrar com Adalberto da Costa Júnior, presidente da UNITA, que chegou hoje a Cabinda para lançar, no sábado, a agenda política do maior partido da oposição, vão ser alvo de represálias.

“A inteligência angolana anda, de cima para baixo, com a presença do presidente da UNITA e isso cria um clima de terror e de intimidação (…) Os que vão se encontrar com o presidente da UNITA vão enfrentar represálias”, afirmou o advogado, avertindo que estas acontecem depois dos líderes dos partidos da oposição regressarem a Luanda, já que neste momento não há ativistas detidos.

Para Arão Bula Tempo, os problemas de Cabinda, província do norte de Angola separada geograficamente do país, devem-se também à sua história e geografia, já que os acordos com Portugal e a forma como foi feita a descolonização, “não tomaram em conta o território”.

Declarou-se independentista, por que é esse “o espírito de todo o cabinda” e considerou que o “ideal seria obter a libertação do povo de Cabinda”, sublinhando que não são apenas os membros da Frente de Libertação do Enclave de Cabinda (FLEC) que são considerados terrorista, “mas todos aqueles que têm ideias contrárias são chamados de terroristas”.

Considerou que a nova Divisão Política Administrativa, que prevê o aumento das atuais 18 para 20 províncias, “é uma maneira de o MPLA [Movimento Popular de Libertação de Angola, no poder desde 1975] atrasar o desenvolvimento de Angola” e observou que as autarquias não vão resolver os problemas de Cabinda.

“Da maneira que os cabindas vivem, desde 1975 até agora, aumentou-se o espírito independentista (…) e se a comunidade internacional não velar pelo problema de Cabinda eu creio que, no futuro, poderá haver uma surpresa, as pessoas estão decididas a viver ou morrer para resgatar a nossa soberania”, destacou.

Também Alexandre Kuanga, líder da Associação para o Desenvolvimento dos Direitos Humanos, disse que estes são constantemente violados face ao endurecimento do Governo angolano, “que não aceita diálogo”.

“A nós, ativistas, consideram-nos como oposição e tornamo-nos pessoas não gratas”, lamentou.

Alexandre Kuanga disse que os eventos que tentam promover são travados, porque o Governo os vê como adversários, com consequências para os direitos humanos, liberdade de expressão, manifestação e associação e até restrições à circulação.

Segundo o ativista, todas as vezes que tentam organizar eventos, o Governo manda a polícia impedir que sejam concretizados, mesmo em casas particulares: “acham que nós vamos incentivar as pessoas a conhecer melhor os seus direitos para reivindicar”.

Defendeu, por outro lado, que a comunidade internacional deveria ter mais representantes naquela região, incluindo a nível diplomático e de organizações não governamentais.

“Nós informamos, mas ficam em silêncio, e claro que o Governo tem visto que não temos ninguém com que nos amparar e a repressão sempre aumenta, as nossas casas são vigiadas, os nossos passos são vigiados”, disse à Lusa.

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