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Quinta, 02 Dezembro 2021 10:18

Disciplina na UNITA: Democracia numa organização não pode ser confundida com a anarquia

Em 1991, trinta anos atrás, fiz parte de um grupo de dissidentes que discordavam com a liderança do partido. Eu era bastante jovem e impressionável. Em Londres vindo de Lisboa, José Pedro Katchiungo mas o Tepe Santos, vieram para me convencer que eu tinha que pensar nos interesses do partido em geral.

Por Por Sousa Jamba

O José Pedro Katchiungo me fez lembrar que, como ele, eu tinha passado pelo CEKK, o Centro de Estudos  Estrategicos Kapessi Kafudanga, na Bembua, que ficava entre a Jamba e Likua. Foi lá, em 1984, que conheci o Zé Pedro; eu estava na companhia de outros mancebos empoeirados.

O José Pedro Katchiungo não é a primeira pessoa de destaque na UNITA a sofrer sanções disciplinarias. Há figuras de peso da UNITA que foram suspensas durante a presidência do Mais Velho Isaías Samakuva; depois de algum tempo, o seu relacionamento com o partido ficou regularizado. Só que estas entidades  não deixaram isto vazar para a imprensa — muito menos para o Tribunal Constitucional. A UNITA é uma grande família, que tem uma cultura que também vai evoluindo, e que vai se adaptando aos novos tempos. Não espero ver por parte do José Pedro Katchiungo o espetáculo dele ir à imprensa estatal  ou ao Tribunal Constitucional. Os agitadores de sempre vão ganhando calos batendo o batuque e insistindo em narrativas que visam dividir a UNITA ainda mais.

O José Pedro Katchiungo, como muitos de nós, incluindo o ACJ, cresceu na UNITA; ele conhece a UNITA muito bem e tenho a certeza que eventualmente haverá uma reconciliação airosa com grande família do partido, que vai crescendo. Claro que vamos precisar aqui de muita ponderação e até mesmo humildade; nas nossas idades, estamos numa fase em devemos dar exemplos aos mais novos.

Sempre houve divergências na UNITA — também houve dissidências na história do partido. As divergências foram resultando em consensos e reconhecimento por todos que as discordâncias resultaram da tendência dos seres humanos terem outros pontos de vista.

O desejo de liderar, de estar à frente, requer gente com um certo carácter — uma imensa fé em si próprio. O líder que não acredita em si próprio não consegue inspirar os outros a lhe  seguir. Ele tem que acreditar que ele, e mais ninguém, pode comandar. Há um perigo  com esta composição psicológica: para um homem com um martelo, dizia Maslow, tudo parece ser um prego!  Um líder que perde as eleições num partido pode desempenhar um papel muito útil numa outra função.

O brilhantíssimo General Vo Nguyen Giap, cujo feitos são hoje ensinados em quase todas academias militares do mundo, foi um grande estratega e não presidente da resistência Vietnamita ou da nação que surgiu depois da unificação dos dois Vietnames. O General Samuel Chiwale foi um grande comandante que garantiu a sobrevivência da UNITA em momentos difíceis entre 1968 e 1970. A UNITA está cheia de líderes que contribuíram tanto para o partido sem ter sido presidente. Nos últimos dois anos, a UNITA cresceu substancialmente por causa do trabalho de Adalberto Costa Júnior e a sua equipa.

Adriano Sapiñala perdeu as eleições para ser Secretário Geral da JURA. Ele não caiu numa depressão, ou estados de auto-piedade a lamentar que ele tinha sido injustiçado profundamente. Sapñala não começou a usar toda a sua energia para minar quem  lhe tinha vencido. Sapiñala foi para o Cuando Cubango e fez um grande trabalho para promover a UNITA.

O General Lukamba Gato já perdeu eleições na UNITA. Quando isto aconteceu não vimos ele correr para a imprensa estatal ou fazer ameaças de que iria ao Tribunal Constitucional. Olhamos só para o General Abílio Kamalata Numa: perdeu no Congresso de 2019 mas vem apoiando o presidente da UNITA, como deve ser, com tanta dignidade. No futuro se o General Numa ou Lukamba Gato se apresentarem como candidatos à presidência da UNITA os seus credenciais como Democratas não vão estar em questão.

A Democracia numa organização não pode ser confundida com a anarquia. Quem não concorda com os estatutos disciplinares de uma organização ou faz tudo para modificar as mesmas ou então retira-se da mesma.  Quando numa organização as ações de indisciplina são toleradas então perde-se o foco. A UNITA não pode operar como a Alcoólicos Anônimos com sessões onde as pessoas podem passar o tempo a vociferar os seus traumas e queixas do passado! A UNITA é uma máquina que pretende assumir o poder político em Angola para implementar um outro sistema de governação. A UNITA é para a alternância. Isto não exclui que haja alguns na UNITA que estejam com genealogias — ou até que sentem que o poder deveria pertencer a A ou B. Mas o que deveria ser nem sempre o que é. O que é que a UNITA está a transformar-se  de uma estrutura militar a um partido político por excelência. É isto que conta mais!

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