Domingo, 28 de Novembro de 2021
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Quarta, 27 Outubro 2021 14:29

A infantilização dos angolanos

O esforço terminal do MPLA pela manutenção do poder está a elevar a infantilização dos angolanos a níveis sem registo. Em termos históricos, os arquivos da bajulação acomodam anotações de intelectuais do MPLA, dignas de premiação em qualquer campeonato mundial da categoria.

Por Evaristo Mulaza

Como aquela que chegou a sugerir a multiplicação da figura de José Eduardo dos Santos. Ou a outra que lembrava que até o ar (im)puro que respirávamos resultava da infinita indulgência do ex-Presidente da República. Todavia, por muito que ultrapassassem as fronteiras ficcionais do endeusamento, afirmações como essas mais serviam para a ridicularização dos seus próprios autores do que propriamente para a infantilização dos angolanos.

De certo modo, porque se tratava de um exercício, genericamente, interpretado no quadro da luta indecorosa de muitos jovens do MPLA para a ascensão na carreira.  No espaço da opinião pública, raramente se ouviram manifestações que levassem tais afirmações a sério ou que sugerissem que as mesmas representavam insulto intencional e grave contra os angolanos. Ao contrário da bajulação, o que se tornou, entretanto, mais comum no MPLA de João Lourenço é um outro fenómeno.

Este, sim, mais ofensivo do que ridículo, porque está focado, de forma consciente e sobranceira, na infantilização dos angolanos. E com o agravante de ser o próprio Presidente da República a elevar a fasquia nos últimos dias. Primeiro, com uma entrevista ao ‘Financial Times’ em que, praticamente, confessa a pés juntos que mantém boas relações com o seu antecessor e em que considera o regresso de José Eduardo dos Santos bom para o país e para o MPLA.

E disse-o com a mesma frieza de quem não afirmara tempos antes que o ex-Presidente era um “cidadão normal”. Ou seja, cuja ausência ou presença não aquecia nem arrefecia os angolanos, em geral, e o MPLA em particular.

O presidente do MPLA infantiliza os angolanos, ao negar que tenha influenciado processos na justiça, quando foi ao ponto de questionar, num discurso sobre o estado da Nação, a demora e a celeridade de processos específicos nos Tribunais.

Os angolanos são tomados todos por acéfalos pelo Presidente, quando refere que um dos dois eixos principais do seu projecto de reforma passa pela democratização das instituições. Quando o seu próprio partido não é capaz de avançar com múltiplas candidaturas e quando está aos olhos de todos a utilização exaustiva de instituições do Estado contra os principais adversários políticos.

João Lourenço parece ver os angolanos todos como idiotas, quando vai ao ponto de se declarar democrata, ao mesmo tempo que nomeia publicamente o candidato com quem não tem de concorrer nas eleições que se prometem para o próximo ano. Enfim, se a infantilização dos angolanos está a este nível, não devia surpreender a ninguém as recomendações do ministro Marcy Lopes sobre como ocultar as verdades incómodas do país aos estrangeiros.

Valor Econômico

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