Sexta, 27 de Fevereiro de 2026
Follow Us

Sexta, 27 Fevereiro 2026 22:00

"Abel Chivukuvuku foi sempre uma espécie de língua entre dentes, mesmo dentro da UNITA"

O sociólogo Rafael Daniel Aguiar, antigo assessor e chefe do Gabinete do então presidente da UNITA, Isaías Samakuva, e um dos representantes de Abel Chivukuvuku nas negociações que viabilizaram a fundação da coligação CASA-CE, explica, pela primeira vez e ao detalhe, as razões que o levaram a abandonar a UNITA e, posteriormente, a não acompanhar aquele que considera seu mentor na constituição do PRA-JA.

Rafael Aguiar sustenta que as suspeitas de corrupção e outros males que recaem sobre Chivukuvuku resultam das suas próprias opções e alerta para o risco de se responder a essas percepções com “murros na mesa”.

O também docente universitário afirma não ver o maior partido da oposição como alternativa viável ao MPLA, devido ao clima de medo e desconfiança mútua entre as duas forças políticas, e admite poder vir a liderar uma organização política nas eleições de 2027, apresentando-se como uma alternativa pacificadora de que o país necessita.

Estamos a pouco mais de um ano do fim do mandato do Presidente João Lourenço. De zero a dez, que nota lhe atribui?

De zero a dez, atribuo-lhe uma nota abaixo de 4.

Diferentes segmentos apontam que João Lourenço, no seu mandato, contribuiu para a redução significativa do sentimento de impunidade e os números também indicam o aumento, a nível do sistema de saúde, de hospitais, bem como a redução da mortalidade materno-infantil. Portanto, não acha que estes dados poderiam contribuir para uma pontuação melhor?

Acho que a pontuação é uma negativa alta. É uma negativa alta precisamente por causa dos pontos mais altos do mandato do Presidente João Lourenço: a cultura de combate à corrupção, que apoiei sem reservas; a diplomacia externa, que elevou o nome e o prestígio do país; a reestruturação do sector da saúde, que culminou com a construção de grandes hospitais, com alta tecnologia, e que pode impedir que mais angolanos com enfermidades complexas se desloquem ao exterior do país.

Portanto, isso conta, de facto. Tal como, no princípio, ter propiciado um ambiente de liberdade de expressão e de informação, que depois foi atrofiando ao longo do mandato, e também esse sentimento de redução da impunidade e da desorganização.

Mas há ainda um aspecto fundamental: nos últimos momentos do seu mandato, reconheceu Holden Roberto e Jonas Malheiro Savimbi e, por via deles, todos os que foram artífices da luta de libertação nacional, da independência e da descolonização de Angola. Com esse gesto, terá lançado sementes para a despartidarização da história de Angola e do Estado e, posteriormente, poderemos chegar à despartidarização das riquezas e a uma distribuição mais justa dos bens.

E quais foram os momentos baixos até ao momento?

Teve também momentos baixos que é preciso referenciar. O elevado custo de vida que atingimos agravou a pobreza e a fome. Há indicadores de que, depois de ter propiciado a liberdade de expressão e de informação, regredimos. Existem mesmo indicadores concretos, com a aprovação de leis que interferem na liberdade de mobilidade e de expressão das organizações da sociedade civil.

Também o pluralismo nos órgãos de comunicação social regrediu, contrariamente ao primeiro momento do seu mandato. A prisão de alguns activistas é outro desses factores. Soma-se ainda o facto de não termos erradicado, de forma clara e objectiva, a reforma educativa que deformou profundamente a qualidade da educação, e de não termos conseguido estender às comunas e aldeias as unidades sanitárias, os serviços médicos e medicamentosos. São esses factores que me levam a retirar 60% ao mandato do Presidente João Lourenço.

Mas devo dizer que deixou indicadores de que, afinal, com a alternância política no interior dos partidos e no país, é possível dar saltos qualitativos na nossa sociedade e no nosso país.

Falou do combate à corrupção. Partilha ou não da perspectiva de que o combate à corrupção tem sido selectivo?

Não partilho. Não partilho pela seguinte razão: não há, nem nunca haverá, um combate à corrupção que abranja, ao mesmo tempo, todas as figuras e todas as pessoas envolvidas. Veja, esse é o ponto mais alto do Presidente João Lourenço. Não é fácil um indivíduo que faz parte do sistema, que de maneira directa ou indirecta terá participado neste fenómeno, encetar um processo de combate ao mesmo.

Tinha de começar pelos mais fortes, pelos mais temidos, pelos mais envolvidos, até para criar inibição e levar as pessoas a acreditarem que isso é sério. Desse ponto de vista, penso que aqui o problema não é selectividade. Em 2017, conforme iniciou, do meu ponto de vista foi feito de forma estratégica.

Veja: em casa, numa organização, quando se quer combater a indisciplina, tem de se começar pelos mais temidos, pelos considerados intocáveis, para que no grupo se perceba que aquele indivíduo está mesmo determinado a pôr disciplina na família e na organização.

Depois, foi-se estendendo a outros indivíduos. Veja: as pessoas mais visadas passaram a ser também administradores municipais e membros da administração pública. Nesse aspecto, não concordo com essa crítica.

Qualquer líder que queira combater um cancro, porque a corrupção é um cancro no nosso país, como ele próprio acabou por reconhecer, deve iniciar pelos mais fortes, pelos mais temidos, pelos mais envolvidos do ponto de vista estrutural, para depois descer e criar inibição noutros extractos, noutros indivíduos e noutras elites de darem continuidade ao processo. E, de facto, conseguiu inculcar medo.

Quero transmitir-lhe que, no sector da educação, a corrupção diminuiu significativamente. Essa tendência de professores receberem dinheiro dos alunos diminuiu. No sector da saúde, essa prática de retirar seringas para vender também diminuiu de forma significativa.

Quer dizer que o combate à corrupção não foi em vão.

É uma percepção ou tem dados?

Não, eu tenho dados. Tenho dados porque sou docente universitário, tenho um grupo de pesquisa e coordeno trabalhos de investigação para a defesa de teses ao nível do mestrado e da licenciatura. Trabalhamos com todas essas temáticas, com pesquisas quantitativas e qualitativas.

E os dados que lhe transmito resultam de várias pesquisas que realizámos. De facto, houve redução da corrupção no sector da educação e no sector da saúde, fruto do combate à corrupção encetado nesses moldes.

O que considero errado é termos recuado, é termos diminuído o ímpeto do combate à corrupção. Porquê? Porque o combate à corrupção, o combate à impunidade, o combate ao nepotismo e o combate à partidarização do Estado são a chave para criarmos um ambiente que propicie maior liberdade, maior desenvolvimento e mais qualidade de vida aos cidadãos.

Um dos elementos que hoje tem servido de crítica ao Presidente João Lourenço é a ideia de que o modelo ou método de corrupção evoluiu e que agora passa pelos ajustes directos. É daí que têm surgido muitas críticas. Vou apresentar alguns números do Novo Jornal: de Outubro de 2017 a Dezembro de 2025, o Presidente aprovou 476 despachos de contratação por ajustes directos, no valor de 61,5 mil milhões de dólares. Cálculos feitos rapidamente podem equivaler a 56 biliões de kwanzas. O que lhe dizem esses números?

Veja, a nossa lei prevê essa forma de contratação pública. Do ponto de vista legal, não é aí que se coloca o problema. O problema coloca-se na qualidade das decisões, do ponto de vista da transparência necessária. Porque, se eu posso promover a contratação pública de outro modo, que é mais transparente e mais inclusivo, e opto por uma fórmula menos inclusiva e menos transparente, embora legal, estou obviamente a indicar menor transparência. Estou a provocar maior suspeição por parte das pessoas.

Estou a envolver menos pessoas com direito a concorrer e a aceder, e estou a restringir. Na linguagem científica, estou a criar uma dinâmica de fechamento, de exclusão social. E estou a privilegiar um grupo restrito. Deste modo, posso ser acusado de que, de forma indirecta, até usando a lei, estou a promover mecanismos subtis de corrupção.

Portanto, há razões para a sociedade estar preocupada, e eu corroboro essas críticas.

É fundamental, apesar de ser legal, que o Presidente recorra menos a esse expediente, sobretudo num domínio tão importante como a distribuição da riqueza. Porque um dos mecanismos de acesso à riqueza e de inclusão social é permitir que os indivíduos concorram e que os melhores ganhem.

O que devemos fazer é desaconselhar esse recurso excessivo. E, numa futura revisão da Constituição da República, temos de acautelar esta matéria. Sabe porquê? Porque, do ponto de vista legal, não há como afirmar que houve violação da lei. Temos de ser justos, sérios e responsáveis.

Do ponto de vista legal, não se pode dizer que a lei foi violada. Mas, do ponto de vista da cultura governativa, que deve concorrer para mais transparência, mais justiça, mais inclusão e decisões mais qualitativas, envolvendo mais pessoas e gerando mais ganhos, não se pode concordar com esse procedimento.

Falemos um pouco de si. Foi alto quadro da UNITA, abandonou a UNITA no momento em que Abel Chivukuvuku também saía do partido. Integrou a equipa que, do lado de Abel Chivukuvuku, negociou a constituição da CASA-CE, mas, em 2019, Abel Chivukuvuku saiu. Por que não o seguiu?

Muito bem, se calhar começo pela UNITA. Saí da UNITA antes do doutor Abel. Saí porque era assessor do presidente Samakuva e produzi um parecer sobre o momento que se vivia no partido, nomeadamente sobre a realização, ou não, do Congresso, no qual o presidente Abel também iria concorrer. Havia, então, esse dilema.

Congresso de 2011, certo?

Exactamente. Havia esse dilema. E eu, enquanto um dos principais assessores do presidente Samakuva, chefe do seu Gabinete de Comunicação e Sociedade Civil, fui incumbido de produzir um parecer.

O meu parecer dizia o seguinte: primeiro, a UNITA é arauto da democracia e tem de realizar o Congresso, porque é estatutário. Segundo, deve ser um Congresso com múltiplas candidaturas, o que também nunca esteve em causa.

Por isso, penso que esse debate é desnecessário.

Com base nesse parecer, avançámos para o Congresso. Eu integrava a comissão de organização dos eventos do Congresso. E, um pouco antes, porque a verdade deve vir ao de cima, uns dias antes de o presidente Samakuva lançar a sua candidatura, recebi em minha casa o meu amigo Liberty Chiyaka, que me convidou a integrar a candidatura do presidente Samakuva como responsável pela campanha dirigida à juventude.

Sempre fui um indivíduo coerente e disse-lhe que não poderia aceitar, porque estava a trabalhar com a mana Odete [Odeth Ludovina Bacalhau Joaquim] na organização dos eventos.

Colocou-me depois em contacto com o engenheiro Adalberto, actual presidente do partido, que também pretendia que eu tomasse essa decisão. Mas eu disse que não o faria, porque já estava envolvido na organização dos eventos. Se abandonasse essa função para tomar partido por uma das candidaturas, estaria a ser incoerente e a violar princípios, tanto meus como aqueles que a própria UNITA defende. Acabei por não aceitar.

Mas, no dia do Congresso, não fui admitido.

Como assim?

O meu nome não constava na lista como delegado. Fui ao Sovsmo, fiquei à porta, procurou-se o meu nome e não estava lá. A sociedade não sabe disso, mas hoje toma conhecimento por vosso intermédio: eu não fui delegado ao Congresso.

Assisti ao Congresso a partir de casa, através do Mfuca Muzemba. Perguntei-lhe como estava a decorrer e ele foi-me reportando. Na altura, fui conotado como apoiante do doutor Abel — essa é a minha interpretação. E, por via disso, não fui ao Congresso, apesar de ser assessor do presidente Samakuva.

Mas, depois do Congresso, apareci como membro da Comissão Política.

Mas só vai à Comissão Política quem passa pelo Congresso ou…

Bom, eu considerei aquilo grave. E, em função disso, comecei depois a fazer um recuo.

Mas é igual à violação dos estatutos, não?

Então, eu regressei a casa. E com os episódios que ocorreram no Huambo, a nossa suspensão, eu, o general Gato e o doutor Abel, tudo isso contribuiu para que eu decidisse sair. Eu fui para casa primeiro.

O doutor Abel continuou na UNITA, e eu saí. Mas não procedi como outros: não emiti nenhum comunicado, não falei ao público e não fiz propaganda sobre isso. Nem sequer transmiti a Angola, à África ou ao mundo as razões da minha saída. É a primeira vez que explico os motivos que me levaram a sair da UNITA.

O doutor Abel saiu depois de mim. Por isso, quando surgiu a situação da CASA, voltei a avaliar tudo segundo a minha consciência, os meus princípios, os objectivos e a realidade.

O que provocou o conflito na CASA? Há dois aspectos fundamentais, em que ambas as partes têm culpa. Primeiro, o facto de os partidos terem violado o acordo, recusando transformar a CASA em partido político. O acordo previa que, depois das eleições, a CASA poderia tornar-se partido político.

As eleições de 2012…

2012, exactamente. Eles concordaram, mas não transformaram a CASA em partido político, e esse factor criou um mau ambiente.

O segundo grande factor foi o facto de os partidos terem concluído, e era verdade, que havia uma hegemonia excessiva dos independentes em relação aos membros dos partidos. E havia que lembrar: aquilo era uma coligação. Coligação é um conjunto de partidos, e não um conjunto de indivíduos sem partido.

Nós éramos membros atípicos da coligação. Do ponto de vista sociológico, éramos membros da coligação, mas do ponto de vista jurídico, não éramos, porque a lei é clara.

Havia, portanto, uma hegemonia excessiva dos independentes, onde eu me incluía. Temos sempre de ser realistas, mesmo quando isso nos beneficia ou não. Os partidos fizeram uma proposta simples: queriam 20% do valor total que a CASA recebia do OGE. Todos os partidos, eram quatro ou cinco, pediam apenas 20%.

20% para partilharem?

Para eles partilharem, não era 20% para cada partido. Além disso, queriam que um membro de cada partido fosse indicado como secretário provincial, para presidir o secretariado provincial da CASA. 

A partir daí, o grupo dos independentes dividiu-se. Eu, o doutor Américo Chivukuvuku, a doutora Odeth e o doutor Xavier defendemos que deveríamos ceder.

O doutor Lindo Bernardo Tito, o doutor Leonel Gomes e, de feliz memória, o nosso amigo Félix Miranda, defendiam que o doutor Abel [Chivukuvuku] não deveria ceder de forma alguma. Assim, o grupo dos independentes ficou dividido. Com o tempo, nesse processo, eu e o Américo ficámos sozinhos. O doutor Xavier também se juntou ao grupo que defendia “não ceder”, e nós dois acabámos isolados. Fomos mal vistos.

Mas, para nós, se tivéssemos cedido, teríamos salvo a CASA, e, de facto, o tempo nos deu razão.

Depois, acabei por ficar sozinho. O Américo [Chivukuvuku], por razões óbvias e compreensíveis, juntou-se ao doutor Abel [Chivukuvuku]. Eu permaneci sozinho.

Por isso, em todo o processo que envolveu a saída do doutor Abel, em alguns aspectos estávamos convergentes e, noutros, divergentes. Avaliando a situação, a realidade, os nossos princípios e objectivos, eu estava a coordenar o Secretariado Nacional da Juventude da CASA, optámos por permanecer na coligação de forma consciente e autónoma, tal como sempre procedemos, primeiro na UNITA e depois na CASA-CE.

Na sequência, o almirante Miau acabou por presidir à coligação, mas surgiram constrangimentos que culminaram na sua saída. Foi substituído pelo presidente Manuel Fernandes, que conduziu a CASA nas eleições de 2022.

Antes das eleições, fui para a CNE. Já não participei na dinâmica política ou partidária, tendo de concentrar todo o esforço para contribuir para um processo eleitoral credível, justo e transparente. E estou satisfeito, porque considero que foi um dos processos eleitorais mais livres, mais transparentes e mais justos. Um dos indicadores é que a oposição teve o maior número de votos.

E, portanto, a CASA-CE perdeu os 16 deputados que tinha…

A CASA-CE perdeu os 16 deputados que tinha por causa de erros estratégicos. Há erros estruturais e estratégicos, e paga-se muito caro quando se cometem erros desse tipo, que outros chamam de erros crassos.

Um dos erros estruturais, estratégicos e crassos que a CASA-CE cometeu nesta era do presidente Manuel Fernandes foi não dar a devida atenção e valor aos delegados de lista.

Quando diz atenção, quer dizer o quê?

Significa que não se deu atenção social, económica e financeira aos delegados de lista.

Logo, deixaram passar várias coisas, não pegaram as listas como deviam?

Os delegados de lista são centrais no controlo do voto que entra para um partido. Para além disso, os delegados de lista são eleitores. O número de delegados de lista que a CASA-CE tinha, se todos tivessem votado na CASA-CE, teria garantido, no mínimo, um deputado.

Está a dizer que há delegados de lista que nem sequer votaram na coligação?

Obviamente. Tivemos casos em que, numa assembleia de votos com delegados de lista da CASA-CE, não tínhamos votos da CASA-CE. Esse é um factor.

O outro factor é a forma como se fez a gestão das condições materiais e financeiras para a campanha eleitoral. Sobre isso, nós já abordámos internamente e penso que seria desnecessário detalhar. Mas também é um factor relevante e reclamado.

E hoje, qual é a relação que tem com o presidente Abel?

Bom, eu tenho uma boa relação com o presidente Abel. A nossa relação não era boa quando terminámos, quando ele saiu da CASA-CE. Porquê? Porque a nossa relação começou a deteriorar-se depois das eleições de 2017.

Como as pessoas sabem, eu constava, depois da reunião do Conselho Deliberativo da CASA-CE, como número 10 na lista dos deputados. A lista foi enviada ao Tribunal Constitucional, mas, no meio do caminho, foi alterada.

No dia seguinte, ao ler os nomes no Jornal de Angola, percebi que aparecia noutra posição, com outro número, e o número 10 tinha sido atribuído a outra pessoa.

Número mais abaixo?

Muito mais abaixo. E eu, como ajo sempre assim, dirigi-me à casa do doutor Abel, solicitei um encontro e abordámos o assunto de forma frontal e aberta. Disse-lhe exactamente aquilo que deveria ter dito ao doutor Abel. Mais uma vez, não fui ao público nem disse a ninguém; o que tinha a dizer, disse directamente ao doutor Abel.

Aquilo criou algum constrangimento na nossa relação. O segundo momento de constrangimento foi quando eu não segui o doutor Abel ao sair da CASA. Também expliquei de forma clara e inequívoca ao doutor Abel, a quem, à época, tinha sido barrado o acesso a ele, as razões que estiveram na base da minha decisão de não o seguir. É meu mestre político, mas o discípulo discorda do mestre quando necessário. Isso não significa desvalorizar o mestre.

Depois, o meu mestre teve uma atitude digna de realce: criou algum distanciamento, mas ligou-me, e eu interpretei aquilo como um gesto nobre. A partir daí, ultrapassei tudo o que nos separava e passei a ter uma relação de mestre e discípulo com o doutor Abel.

Isso, contudo, não me impede, e essa é a minha natureza, e as pessoas têm de se habituar, de elogiar ou criticar qualquer pessoa, quando julgo necessário.

O seu mestre criou agora o PRA-JA e a sua concepção está rodeada de várias suspeições: a corrupção, com as aspas que merece. Olhando às críticas que surgem e sendo alguém que lidou com Abel Chivukuvuku durante muito tempo, acha que ele é capaz de, com as aspas que merece, “se vender”?

Olha, meu caro jornalista, o doutor Abel foi sempre uma espécie de língua entre dentes, de baixo e de cima, mesmo dentro da UNITA.

O que quer dizer?

Quer dizer que ele sempre esteve no meio, entre a ala moderada e a ala radical, mesmo dentro da própria UNITA. Esse posicionamento sempre marcou a sua personalidade e fez com que fosse encarado com sentimentos de amor e ódio.

Além disso, e a sociedade precisa perceber isso, o doutor Abel veio representar o presidente da UNITA em Luanda num momento de profunda desconfiança entre as partes.

Está a falar de 92?

Sim, em 1992. O doutor Abel tomou algumas decisões que acentuaram esse clima de amor e ódio. Por razões de segurança, decidiu instalar-se no bairro do Alvalade, que era o bairro da elite do MPLA. Era raro que alguém, mesmo angolano nascido e criado em Luanda, como eu, que cresci na Marginal de Luanda, conseguisse residência ali se não pertencesse à elite do MPLA. Esse posicionamento, aliado às amizades que cultivou, acentuou a percepção de amor e ódio, de confiança e suspeição, que o acompanha até hoje.

Outro factor foi o facto de ele ter sobrevivido ao ataque de 1992 entre a UNITA e o Governo. Ele não só sobreviveu, como foi levado a curar-se em plena Luanda, quando outros não tiveram essa sorte. Esse episódio também reforçou a desconfiança em torno da sua figura.

A criação da CASA-CE e os resultados obtidos em pouco tempo, um fenómeno não só em Angola, mas também em África, fruto da sua dinâmica política e da qualidade dos quadros que reuniu, acentuou ainda mais essa percepção.

Depois, cometeu um erro, segundo alguns, que eu também analisei e produzi parecer sobre isso. Face às dificuldades de legalização de um partido, decidiu voltar para a UNITA. Na altura, expliquei ao Américo Chivukuvuku, meu irmão político, que essa decisão significaria: “o país ganha, mas ele perde”.

Sou especialista em sociologia política, e, nesse parecer, argumentei que ao voltar para a UNITA, Abel atenuaria desconfianças, promoveria um ambiente de irmandade e reforçaria a coligação. Só tinha essa hipótese: voltar e permanecer.

No entanto, ao sair posteriormente, nos moldes em que criou o PRA-JA, a percepção pública de suspeição aumentou. A forma como os dirigentes do PRA-JA reagiram às críticas, muitas vezes de forma musculada e com argumentos pouco construídos, aprofundou ainda mais essa percepção.

Em política, a percepção, mesmo que não seja factual, é muitas vezes considerada verdade. A opinião pública emitida por pessoas consideradas credíveis, como um Zongo ou um Rafael Aguiar, é a verdade para a população, para as elites e até para os académicos, porque há pouco hábito de investigação de factos antes de emitir juízos de valor.

Portanto, todos os políticos devem ter consciência dessa realidade. O doutor Abel vive um dilema: realizar o sonho de ter um partido político e ambicionar a Presidência da República, ao mesmo tempo que se submete a suspeições e desconfianças junto de círculos que ele sabe que também dialogam com o MPLA. Ele conhece bem a política, a UNITA e o MPLA, e esteve numa posição privilegiada de negociação.

Eu também estive nessa posição, tendo crescido, estudado e trabalhado com militantes e quadros seniores do MPLA, da UNITA e da sociedade civil. Entre este dilema, acredito que o presidente Abel escolheu realizar o sonho de ter um partido e manter a probabilidade de se guindar à Presidência da República. Mas tem de ter consciência de que, para os cidadãos, a verdade é muitas vezes a percepção e a opinião pública. Essa percepção deve ser respeitada, analisada e respondida de forma científica, académica e política. Não se pode menosprezar isso.

Falemos mais precisamente de si. Continua na CASA-CE, não aderiu a nenhum dos partidos que compõem a coligação. Vai permanecer, perspectiva outro futuro… o que, de facto, a sociedade pode esperar?

Neste momento, sou militante da coligação CASA-CE. Nessa condição, sou comissário nacional na CNE, cujo mandato, do ponto de vista legal, termina este ano, portanto, no meio deste ano ou pouco depois. Mas sou também líder e político.

Tenho vocação para a política, porque fui forjado, treinado, educado e instruído para ser líder e servidor. Os valores que moldaram a minha educação são a gratidão, o amor ao próximo, a fé, a esperança, a tenacidade, a perseverança e a visão estratégica.

É nessa perspectiva que fundei a ACEQUA e é também sob essa perspectiva que tenho vindo a dirigir a ACEQUA.

O que é a ACEQUA?

É a Associação para a Cidadania e Ensino de Qualidade. A ACEQUA cresceu com vigor, implantando-se em todo o país, em todas as províncias e municípios, e realizou actos que raramente são organizados por organizações da sociedade civil, partidos políticos ou outras entidades.

Devido a este alcance, tenho recebido convites para encabeçar listas de partidos políticos para concorrer às eleições de 2027. Posso revelar que são cerca de cinco partidos da oposição, legais, que estão a negociar com os meus representantes, porque, enquanto comissário nacional, ainda não posso assumir essas candidaturas.

Temos vocação para a política e qualidades para assumir altos destinos do país, como já demonstrámos em diversas organizações: na Liga da Juventude Lusófona, como secretário-geral; na Associação de Estudantes do ISCED Luanda; na Associação de Estudantes da Universidade António Agostinho Neto; na Juventude Patriótica de Angola — braço juvenil da CASA-CE; e no Secretariado-Geral da CASA-CE. Consideramo-nos preparados, quer do ponto de vista moral e ético — nunca cedemos à corrupção, à majulação ou ao radicalismo — quer do ponto de vista do serviço, com patriotismo, verdade e amor ao próximo, para contribuir para a melhoria da qualidade de vida dos cidadãos.

A decisão de concorrer a eleições presidenciais ou encabeçar listas partidárias só será tomada quando terminar o meu mandato na CNE, momento em que a lei me libertará da obrigação de não pertencer a nenhum partido e de não poder apresentar candidatura.

Considero que estamos na era da transição: da geração da independência para a geração pós-independência, onde me incluo. Essa transição é necessária, porque, se não houver, a geração mais velha, cansada, cometerá erros graves e prejudicará a Nação. É preciso transição no MPLA, na UNITA e na sociedade civil em geral.

Estamos também a viver a transição da liderança do MPLA, que, após 50 anos, está cansada e sem ideias novas. Embora tenha dado contributos positivos, é chegada a hora da alternância política. Mas a alternância não pode ir para qualquer um, pois há receios de regressão à violência, caça às bruxas e vingança.

É neste contexto que a nossa geração tem uma responsabilidade acrescida, e é nesse espírito que me apresento como candidato em potencial.

Pode desmitificar o “qualquer um”?

Bom… a UNITA, por exemplo, acredita que o MPLA quer perpetuar-se eternamente no poder, e isso pode gerar revoluções populares ou convulsões sociais. Por outro lado, o MPLA acredita que, se a UNITA ganhar o poder, haverá perseguição e caça às bruxas, o que também pode gerar convulsões sociais. É nesse contexto que eu me apresento.

Sou um indivíduo nascido e criado aqui em Luanda, com os valores que já referi, que sabe lidar com a UNITA, com o MPLA e com a sociedade civil, e que nunca caiu nas armadilhas da corrupção, que são muitas neste país. Estou a dizê-lo publicamente: não bajulo, mas também não aceito incendiar o país ou radicalizar, como alguns jovens pensam.

Penso que estamos em condições de contribuir para uma transição democrática, transparente, justa, digna e moral para a sociedade. Precisamos de jovens da minha geração que sejam dignos, não apenas competentes, mas competentes e que resistiram à corrupção.

Acha que a transição deve passar pela organização política que vier a dirigir?

Claramente! Com toda a modéstia, simplicidade e humildade que nos caracterizam, valores que os angolanos e angolanas conhecem, acredito que a nossa trajectória nos permitiu adquirir activos válidos para este período de transição.

Veja: liderei uma associação de estudantes na Universidade Agostinho Neto, num período de transição política, sendo o único que não pertencia ao MPLA, e consegui dirigir a associação. Conduzi o processo de democratização da universidade, o que não foi fácil. É prova de que, efectivamente, é possível.Durante todos os anos eleitorais, recebíamos telefonemas a dizer: “vem falar mal deste político, tem isso, tem aquilo”. Mas nunca cedemos. E, com o serviço secreto mais competente de África, que sabe disso, nunca cedemos. Fomos detidos mais de cinco vezes, torturados nas cadeias, e, na última vez, foram-nos buscar à meia-noite para matar.

Mesmo assim, nunca fomos radicais, incendiários, nem defendemos ajustes de contas ou vinganças, porque a nossa missão e os nossos valores não nos permitem.

Para terminar, como olha para o novo modelo de Ampla Frente apresentado pela UNITA?

Portanto, a UNITA apresentou não só uma Ampla Frente, como também um Pacto de Transição.

Anunciou…

Anunciou… a Ampla Frente pode contribuir para uma alternância política ordeira, positiva e pacífica. Mas tem de ser justa e respeitar os outros. Uma Ampla Frente que engole os outros actores políticos, fazendo-os desaparecer, não é justa nem positiva.

Abel Chivukuvuku não desapareceu.

Eu acho que, se ele não tivesse saído, provavelmente teria desaparecido. O Bloco Democrático enfrenta esse dilema: ficar mergulhado e desaparecer ou destacar-se. Eu não sou contra a Ampla Frente, mas sou contra uma Ampla Frente que faz desaparecer os actores políticos enquanto sujeitos activos, colectivos ou individuais, impedindo-os de continuar a enriquecer o mercado político.

Ou seja, para ingressar ou aderir vai depender da negociação que tiver?

Os que forem contactados para aderir têm de ter isso em conta. Por que houve guerra civil em Angola? Não foi precisamente por existir uma multiplicidade de partidos políticos, uma pluralidade de ideias, para que a síntese das melhores ideias pudesse, em cada momento, dirigir Angola e guindar o país para uma Nação digna?

Não é essa a principal razão apresentada tanto pela FNLA como pela UNITA, de forma justa, que levou à guerra civil? E não é também a nossa principal crítica ao MPLA, que defendia o monopartidarismo?

Ora, quando se faz uma Ampla Frente, não se pode esquecer isso: deve continuar a existir multiplicidade de partidos políticos. Não se pode criticar quem traz um partido, porque, ao criticar, está-se a dar razão ao MPLA, que entre 1975 e 1992 defendia ser o único representante do povo angolano.

Portanto, a Ampla Frente não pode ir contra os princípios que defendemos. Não pode apoiar teses que levaram à guerra civil, como diluir partidos e esvaziar lideranças partidárias para integrar e avançar.

Está a defender uma coligação real?

Sim, defendo uma coligação real. Agora, atenção: quem deseja uma Ampla Frente em que a sua força política seja diluída também é livre para seguir esse caminho. Mas quem quer manter-se como uma força política activa e incisiva, seja numa Ampla Frente ou fora dela, também é livre.

Ou seja, não podemos coartar a liberdade no que diz respeito à manutenção do poder, mas também não se deve coartar a liberdade quando se pretende promover a alternância política.

Mas parece que hoje a crítica ou a forma de fazer política de diferentes partidos da oposição mudou. Em alguns sectores, até se levanta a questão se a UNITA já é Governo. Percebe-se que, em diferentes partidos, a crítica mudou de direcção…

Isso concorre para dois factores fundamentais. O primeiro é o cansaço: há um desgaste natural na luta pela alternância política. O segundo factor é a reacção da UNITA face às críticas. A UNITA precisa estar atenta a isso. Ao reagir como se fosse o MPLA ou o próprio Governo, começa a mobilizar sectores da sociedade que, em vez de se focarem no MPLA, desviam a atenção para a UNITA.

Por isso, embora a UNITA se posicione como líder da oposição, precisa de ter uma estratégia clara de interação com os pequenos partidos, com os actores sociais e com organizações da sociedade civil qualificadas, senão acaba por atrair críticas e radicalizações desnecessárias.

No jogo político, nem sempre vigoram apenas a lei ou a imposição, porque a política é tanto arte quanto ciência. O adversário pode criar estratégias que desviam o foco dele próprio para outro lado. Você pode protestar, gritar, mas a realidade persiste. É preciso encontrar estratégias e métodos para que se perceba que a oposição está unida e que o foco continua a ser o adversário que desvia a atenção.

Actualmente, os partidos estão cansados dessas técnicas e, por isso, reagem de forma abrupta. Daí o aumento da intolerância. Quero terminar com um apelo especial aos grandes partidos: um pequeno descuido pode transformar-se num problema maior.

É preciso haver estratégia para lidar com milícias digitais e activistas políticos. O MPLA deve priorizar a paz, a reconciliação nacional e a unidade na diversidade. A UNITA também precisa de uma estratégia similar, orientada para a paz, reconciliação e unidade.

Começo a estender esse apelo ao PRA-JA, que também deve ter em conta essas questões ao reagir às críticas ao seu líder. E, por fim, à sociedade civil: a sociedade civil pode fazer política, mas não deve buscar atingir o poder directo, especialmente nas presidenciais e legislativas. Nas autarquias há espaço, mas a sociedade civil não pode ser “boca de aluguel”, apoiando ora uns, ora outros.

Se se deixar levar por essa avalanche de apoios, perde a identidade e deixa de cumprir o papel fundamental de criar pontes quando há radicalismo e conflitos. Por exemplo, no Huambo, perdemos uma cidadã angolana militante do MPLA, isso é grave.

Toda a sociedade civil, independentemente do alinhamento, deve condenar esses excessos, tal como condenamos a intolerância do MPLA. É fundamental que a sociedade civil exista como mediadora e facilitadora. Sem isso, a luta política se torna ferrenha e intolerante, podendo resultar na perda de vidas humanas, e isso é inaceitável.

in Polígrafo África

Rate this item
(0 votes)
Last modified on Sexta, 27 Fevereiro 2026 22:57