As duas jovens encontram-se detidas desde o dia seis do mês em curso, acusadas de terem furtado dois telemóveis topo de gama da viatura do Procurador.
Pelicano Pedro, procurador-geral da República adjunto destacado na sala das garantias do Tribunal de Comarca do Namibe, está a ser acusado de abuso de poder, por ter supostamente mandado prender duas jovens, Jandira Benita Zeca Chivela, de 23 anos, e Jaciara Clécia Pio Luís Tchikalafoia, de 19 anos, sob a acusação de terem furtado dois telemóveis de marca iPhone no interior da sua viatura.
Os familiares das jovens, que denunciaram o caso a OPAÍS e à Rádio Mais Huíla, afirmaram que o procurador teria supostamente aliciado primeiramente uma das jovens, Jaciara Benita Zeca Chivela, de 19 anos, para ter relações sexuais em troca de valores monetários na ordem de 200 mil Kwanzas.
De acordo com a mãe de Jaciara Clécia Pio Luís Tchikalafoia, que chegou a falar com a sua filha já na 2ª Esquadra do Comando Municipal da Polícia Nacional no Lubango, a sua filha contou- lhe que, depois de ter sido supostamente convidada pelo procurador no dia 4 de Fevereiro, esta chamou a sua amiga, Jandira Benita Zeca Chivela, para não estar sozinha. Depois de já estar com a sua amiga no interior da viatura e mais outras duas pessoas que não souberam identificar, isto na noite do dia 5, foi-lhes anunciada a intenção de manter relações sexuais em troca de valores, mas que tal acto teria de ser filmado por ele, o que fez com que as duas decidissem descer da viatura, porque não acordavam com a filmagem.
"A minha filha disse que ela es teve a caminhar numa das ruas da cidade, quando um carro parou e um senhor chamou por ela, dizendo que a conhecia. Ela disse que não o conhecia, mesmo assim ele pediu o número de telefone dela. A minha filha disse que não tinha telefone, mas que daria o do seu amigo e o fez. Ela entregou o número do seu amigo para manter contacto. Já na noite do mesmo dia, o senhor ligou para a minha filha, e ela disse que sozinha não podia ir. Por isso, chamou a amiga com quem anda sempre. Ela contou que primeiro o senhor disse que haveria de lhes dar 200 mil a troco de sexo, mas quando o senhor começou a falar em plataformas digitais, elas ficaram com medo", disse.
Ainda assim, afirma a mãe de Jaciara Clécia Pio Luís Tchikalafoia, o passeio no interior da viatura continuou até às imediações do bairro Arco-íris, onde Pelicano Pedro terá entregue 5 mil via levantamento sem cartão, para compra de comida.
A mãe da jovem disse aos choros que, já na zona do Arco-íris, o procurador terá comprado 10 cervejas, e as duas jovens amigas consumiram duas das mesmas, tendo deixado as demais depois de haver algum desentendimento.
"As miúdas disseram ao senhor que estavam com fome, e ele mandou um levantamento sem cartão de cinco mil, para comprar comida. Após elas te rem saído do carro, minutos de pois, o senhor apareceu dizendo que no seu carro tinham desaparecido dois telefones. A minha pergunta és o que estaria a fazer um procurador na rua, de madrugada, com dois telefones desta marca, aliciando as meninas para ter sexo? Na esquadra, o procurador disse que a landira, amiga da minha filha, só valia 20 mil. Mas ele é da lei, se rá que não sabia o que estava a fazer? Se eram quatro pessoas, onde estão as demais?", questiona.
Outra familia
Já a mãe de Jandira Benita Zeca Chivela disse que a sua filha foi detida em sua residència, no entanto, tendo deixado um bebé de um ano, que ainda mama, por isso, pede que a mesma seja colocada em liberdade para cuidar do filho.
"A minha filha nunca roubou, são órfãos de pai, mas eu faço tudo para que não lhes falte na da. Mesmo o namorado da amiga, Jaciara, com quem as duas estiveram na sua casa, confirma que ela não tinha nada. Ela tem um filho pequeno que ainda mama. Durante estes dias todos, ele passa o tempo a chorar. Liber tem só a minha filha", apelou.
"Confessaram porque foram batidas pela policia"
Os familiares das duas jovens amigas, Jandira Benita Zeca Chivela, de 23 anos, e Jaciara Clécia Pio Luís Tchikalafoia, de 19 anos, afirmam que as duas jovens foram detidas sem qual quer mandado, o que levanta suspeitas de abuso de poder da parte do procurador.
Etiandro Guimarães, irmão mais velho de laciara Clécia Pio Luis Tchikalafoia, informou que, no dia seguinte, sua irmã se encontrava no seio dos seus amigos, quando uma viatura de cor preta e vidros polarizados (fumados), da qual saiu um senhor com uma arma (pistola) a apontar para a minha irmã, que, metendo-se em fuga, dirigiu se à 2ª Esquadra para denunciar o sucedido.
"Depois de terem saido do carro, a minha irmă foi à casa do seu namorado, porque estavam a preparar-se para ir a uma festa, porque o menino faz Karaokë, por volta das 22 horas. Afinal, o senhor já estava a sondar a menina na cidade. Ele depara se com a menina, saca a arma e aponta para ela. Os meninos colocaram-se em fuga e foram em direcção à 2ª esquadra para denunciar o caso. Postos na esquadra, apareceu o senhor, e rapidamente foi identificado pelos miúdos que tinham ido à poli cia, como o senhor que tinha sacado a arma. O senhor identificou-se e todos os policias estavam a chamá-lo de chefe. Foi ele quem estava a fazer as perguntas e se pôs sentado no lugar do investigador", afirmou.
Por outro lado, Etiandro Guimarães disse que a sua irmã declarou à policia que tinha sido ela, porque foi agredida pelos agentes, e que as declarações da sua irmă foram impressas pelo procurador, apesar de ser supostamente o ofendido. Questionado se a sua irmã é trabalhadora de sexo, respondeu que não, tendo acrescentado que a mesma tem um namorado.com quem está há muitos anos.
"Ela disse, mano, não sou eu, só disse que era eu porque me bateram, ele mandava os polícias baterem na miúda para que falasse a verdade! Eu pedi a ela para que me contasse a verdade. Ela disse que não era ela, eles estavam batendo nela com uma mangueira. Tem lá na esquadra uma mangueira de verdade que eles usavam. Estavam a bater nela e chamá-la nomes pejorativos", lamentou.
Procurador confirma contacto com as jovens, ressaltando que proposta para pagamento por sexo veio de Jaciara Tchikalafoia
Com vista a garantir o exercício do direito de contraditório, o jornal OPAÍS e a Rádio Mais/Huila contactaram o procurador geral da República adjunto colocado na sala das garantias do Tribunal da Comarca do Namibe, Pelicano Pedro, para explicar a sua versão dos factos.
Em entrevista por via telefónica, Pelicano Pedro admitiu ter mantido contacto com as duas jovens, porém, nega ter apresentado qualquer proposta sobre favores sexuais em troca de 200 mil kwanzas, tendo revelado que tal proposta foi-lhe apresentada pela jovem Jaciara Clécia Pio Luís Tchikalafoia, de 19 anos.
De acordo com o nosso interlocutor, o encontro com Jaciara Clécia Pio Luis Tchikalafoia terá ocorrido numa das ruas da cidade do Lubango, capital da provincia da Huila, quando o mesmo circulava com a sua viatura na companhia do seu motorista. Por outro lado, Pelicano Pedro disse que não foi ele quem levou as meninas à policia, por isso, nega ter exercido qualquer influência sobre o processo.
"Os factos ocorreram no dia 4 de Fevereiro, eram por volta das 13 ou 12 horas, eu estava a andar com o meu motorista по carro, quando avistei uma jovem, eu dentro do carro indiquei e perguntei se ele conhecia a moça que estava parada. De repente, a moça apercebeu-se de que eu estava a indicá-la e pediu que parasse o carro. Eu parei, baixei o vidro, saudei-a educadamente, perguntei-lhe se ela vivia naquela rua, ela disse que não, disse que estava a ir ao encontro do seu melhor amigo, e perguntei se tinha outra forma de poder contactá-la caso eu quisesse falar com ela, ela disse que estava sem telefone e que tinha o telefone do amigo dela. Quando eram 15 horas, ela ligou-me a dizer que estava com fome. Perguntou-me se eu podia mandar algum dinheiro para comprar comida e eu mandei 5 mil kwanzas", esclareceu.
Na sequência, Pelicano Pedro revelou que, por volta das 19 horas, Jaciara Clécia Pio Luis Tchikalafoia terá ligado para si a pedir dinheiro com pretexto de pagar o quarto de uma hospedaria.
"Quando eram 19 horas, ela ligou-me a dizer que já estava na pensão da TAAG e que ela precisava de 15 mil para pagar o quarto onde haveríamos de ficar. Fiquei espantado, alguém com quem não combinei nada, está a dizer para mandar 15 mil Kwanzas para pagar o quarto, ela foi insistindo e aí eu disse que tinhamos que falar pessoalmente sobre este assunto. Ela mandou uma mensagem a dizer:
'Manda já o dinheiro, estás a demorar', fiquei sem saber o que dizer", explicou. Segundo o procurador, o encontro ocorreu horas depois, no entanto, não no lugar indicado pela jovem, mas numa das ruas da cidade, porque o procurador não podia estar exposto no local inicialmente indicado por ela, daí ele ter sugerido um outro local nas cercanias da cidade do Lubango.
"Quando nos encontramos na rua da Marivel, ela disse que a pensão era próxima, onde poderíamos ficar. Eu disse-lhe que não havia combinado nada com ela. Ela disse que queria ficar naquele local porque a sua mãe estava em casa com o namorado. Respondi que não poderia ficar em local desconhecido por causa da minha segurança, por isso, sugeri um outro local, aí ela disse que teria que ligar para uma irma, porque não queria ir sozinha que teríamos de nos encontrar ás 22 horas, a mesma irma confirmou a história, segundo a qual, a mäe estava com o namorado", detalhou.
Sobre os telemóveis, Pelicano Pedro dis-se que só se apercebeu do seu desapare-cimento depois da saida das duas jovens do interior da viatura. "Quando nos en-contramos no carro, a mais escurinha disse que, olha, nós estamos a sair, tenho a certeza de que nós vamos dormir juntos, então vamos só dormir juntos de graça e vocês não vão nos dar nada? Eu disse que não estava a perceber, quando a moça que me apresentou a suposta irma falava de 15 mil Kwanzas. Ela disse: 'Vamos aqui papo-recto, ela disse que tem namorado e um filho, e não poderia ir a casa sem nada. Eu perguntei quanto poderia dar, ela respondeu que 50 mil Kwanzas. Eu respondi que você não vale 50 mil Kwanzas, e desceram do carro! Em momento algum eu falei de 200 mil Kwanzas", particularizou.
Pelicano Pedro nega ainda ter andado armado, porque não tem necessidade para isso, porém, só se apercebeu do desaparecimento de dois telemóveis de marca iPhone, sendo um 15 Pro e outro 17, ambos avaliados em mais de 3 milhões, depois. "Eu só quero os meus telemóveis", apelou. OPAÍS

