Domingo, 28 de Novembro de 2021
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Quinta, 21 Outubro 2021 08:08

Jornalista processado em Portugal por "vice" de Angola confia que vai ganhar

Oliver Bullough, autor do premiado "O País do Dinheiro", diz não perceber o processo movido pelo vice-presidente de Angola e defende o seu trabalho. O pano de fundo são as compras milionárias de vestidos pela filha do político, filmadas pelo canal TLC. 

O Oliver Bullough, o jornalista de investigação britânico processado pelo vice-presidente de Angola, está seguro do seu trabalho jornalístico e acredita que a justiça portuguesa decidirá a seu favor. O autor de O País do Dinheiro, sobre como bilionários e políticos corruptos à escala global dobram as regras a seu favor, indica que o processo judicial em Portugal é o primeiro que enfrenta por causa do livro premiado que entrou em várias listas dos melhores trabalhos de não-ficção em 2019.

"O Sr. De Sousa [Bornito de Sousa] também me ameaçou com ação legal na Escócia, mas nada aconteceu", indica Oliver Bullough à SÁBADO. "Estou pouco seguro sobre qual é a objeção do vice-presidente sobre o meu trabalho jornalístico, mas estou confiante de que o meu trabalho é rigoroso e de que o tribunal vai decidir a meu favor", acrescenta em respostas enviadas por escrito.

Bornito de Sousa está a exigir, juntamente com a sua filha Naulila, uma indemnização de 525 mil euros a Bullough e à editora do jornalista em Portugal, a 20|20 Editora. Na ação cível, cujo conteúdo foi noticiado pelo Público, Bornito de Sousa e a filha exigem que o autor se retrate "dos juízos de valor e imagem" feitos no livro e, ainda, que a obra seja completamente retirada do mercado.

O motivo da reclamação tem a ver, no essencial, com nove parágrafos no livro a propósito da compra por Naulila, na companhia da mãe e de familiares, de uma série de vestidos de luxo numa loja de elite em Nova Iorque. As provas dos vestidos comprados – feitos especialmente para o casamento de Naulila – foi acompanhada pelo canal TLC, que filmou a ocasião para o programa Say Yes do The Dress [Diz Sim ao Vestido]. "Saiu com um total de nove vestidos Pnina Tornai, customização, acessórios, um total de mais de 200 mil dólares", diz um apresentador no programa.

O primeiro vestido que Naulila experimenta – para uma parte do casamento de 800 pessoas "em que só a família está presente", diz a estilista – surge no ecrã com um preço de 30 mil dólares. "A Naulila é praticamente realeza no seu país", diz a estilista Pnina Tornai no programa. Segundos depois, Tornai aparece a divulgar o preço do vestido feito para a mãe da noiva: 30 mil dólares. Todas as provas dos vestidos são filmadas e os preços divulgados. "A Naulila comprou seis vestidos para as damas de honor, a 15 mil dólares cada um", diz Tornai.

Oliver Bullough critica no livro a falta de preocupação da produtora do programa em conhecer a origem daquele dinheiro – em Angola cerca de metade da população vive com menos de dois dólares por dia – assim como a atitude de Nalila, "sobretudo quando o pai ajuda a governar um país com a oitava pior taxa de mortalidade infantil do mundo". Bornito de Sousa e a filha invocam danos morais e apontam que as afirmações no livro são atentatórias ao bom nome e à honra de ambos, segundo o Público.

O jornalista britânico remete a SÁBADO para o comunicado da Index on Censorship, uma organização sem fins lucrativos que defende a liberdade de expressão. "A Index on Censorship está extremamente preocupada com o processo contra o autor e jornalista Oliver Bullough. Bullough está a ser processado em Portugal pelo vice-presidente de Angola em 525 mil euros, com relação ao seu premiado livro de não ficção, ‘Moneyland’", indica a organização. "Bullough está a ser processado em mais de meio milhão de euros numa jurisdição em que nunca esteve, por publicar informação que é claramente de interesse público", acrescenta.

Num processo separado, o vice-presidente angolano processou também Paulo Morais, por afirmações que o fundador da Transparência e Integridade fez no Facebook e na CMTV sobre as mesmas imagens na loja em Nova Iorque, numa altura em que rebentara o escândalo "Luanda Leaks", que comprometeu Isabel dos Santos. SÁBADO

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