No entanto, algumas estimativas apontam que o número total de baixas cubanas nesse período poderá ter atingido mais de 10.000 mortos, reflectindo a dimensão do esforço militar de Havana na região durante esses anos de confrontação armada.
A presença militar cubana em Angola começou em agosto de 1975, quando chegaram os primeiros conselheiros militares para apoiar o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) face às forças adversárias internas, sobretudo a UNITA, apoiadas pelo regime do apartheid sul-africano e por aliados externos. Ao longo dos anos seguintes, a missão cubana cresceu significativamente, envolvendo cerca de 375 mil militares e técnicos civis, incluindo médicos e professores.
Foi essa presença, ao lado das tropas angolanas, que contribuiu decisivamente para travar a ofensiva sul-africana e alterar o equilíbrio estratégico regional, com destaque para a batalha do Cuito Cuanavale, em 1988. O impacto dessa vitória ultrapassou as fronteiras de Angola.
Em Havana, em 1991, Nelson Mandela afirmou que sem a derrota do regime do apartheid em Cuito Cuanavale as organizações de libertação sul-africanas dificilmente teriam sido legalizadas. Considerou mesmo aquela batalha como um ponto de viragem na luta pela libertação da África Austral.
A missão cubana em Angola ficou conhecida como Operação Carlota, em homenagem à mulher escravizada que liderou uma rebelião contra a escravatura em Matanzas, em 1843-44. Foi uma operação militar singular: milhares de cubanos combateram em território africano sem qualquer reivindicação territorial, económica ou estratégica direta.
Hoje, quase meio século depois, é Cuba que enfrenta uma situação difícil. O país continua sujeito ao bloqueio económico imposto pelos Estados Unidos há várias décadas e, mais recentemente, tem enfrentado sérias restrições no abastecimento energético. Navios com combustível provenientes da Venezuela e do México foram impedidos de chegar à ilha, enquanto empresas de transporte e seguradoras têm sido ameaçadas com sanções. Como consequência, os apagões tornaram-se frequentes e afetam o quotidiano de milhões de cubanos.
Neste contexto, cresce o debate sobre o papel que países historicamente apoiados por Cuba, como Angola, podem desempenhar.
Angola é hoje um dos principais produtores africanos de petróleo bruto e um actor relevante nos mercados energéticos internacionais. A petrolífera estatal Sonangol mantém parcerias com várias multinacionais ocidentais, incluindo empresas de países que apoiaram forças adversárias de Angola durante a guerra civil. Ao mesmo tempo, as receitas do petróleo transformaram profundamente Luanda, ainda que com fortes desigualdades sociais e económicas persistentes.
Apesar dessas contradições, Angola reconheceu oficialmente o contributo cubano para a sua soberania. Em 2015, foi inaugurado no Cuito Cuanavale um monumento que representa um soldado angolano e um soldado cubano segurando juntos o mapa de Angola — símbolo da luta comum travada num dos momentos mais decisivos da história nacional.
Sem a intervenção cubana, é plausível admitir que Angola poderia ter enfrentado um desfecho diferente no conflito regional da década de 1980. A consolidação da sua soberania política e o controlo sobre os seus recursos estratégicos poderiam ter sido profundamente condicionados por forças externas alinhadas com o regime do apartheid e interesses geopolíticos da Guerra Fria.
É neste enquadramento histórico que a actual crise energética em Cuba levanta uma questão inevitável: Angola já respondeu plenamente ao apoio recebido no momento mais crítico da sua história?
O Governo angolano tem condenado repetidamente o bloqueio norte-americano contra Cuba. Em setembro de 2025, o Presidente João Lourenço classificou-o como “injusto e prolongado” e defendeu a sua suspensão incondicional devido aos impactos sobre a população cubana. No entanto, essas posições diplomáticas ainda não se traduziram em medidas concretas de cooperação energética com significado estratégico.
Recentemente, um petroleiro russo chegou a Matanzas para ajudar a aliviar a escassez de combustível na ilha. O gesto foi interpretado como uma resposta política ao bloqueio. Num contexto semelhante, cresce entre analistas e observadores a ideia de que Angola poderia desempenhar um papel mais ativo no apoio energético a Cuba.
A relação entre Angola e Cuba não foi construída apenas com base em interesses diplomáticos formais. Foi uma relação forjada em combate, em sacrifício humano e numa visão comum de libertação africana. Cuba não enviou tropas para Angola em troca de petróleo. Enviou-as por convicção política e solidariedade internacionalista.
Por isso, a questão que hoje se coloca não é apenas económica. É histórica.
Num momento em que Cuba enfrenta dificuldades energéticas severas, Angola tem condições materiais para desempenhar um papel relevante. Um eventual apoio petrolífero à ilha teria um significado que ultrapassa a cooperação bilateral: representaria o reconhecimento de uma dívida política e moral contraída durante um dos períodos mais decisivos da história angolana.
Passaram quase cinquenta anos desde o início da Operação Carlota. Ainda assim, para muitos observadores, permanece uma pergunta em aberto: terá Angola já quitado a sua dívida histórica com Cuba?

