Quarta, 01 de Abril de 2026
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Quarta, 01 Abril 2026 11:43

Mfuca Muzemba: “O MPLA já devia ter deixado o poder há muito tempo”

Líder do projecto político Esperança defende transição geracional, critica falta de confiança nas instituições e admite possível derrota do MPLA em 2027.

Num discurso marcado por críticas à governação, apelos à participação juvenil e defesa de um pacto nacional, Mfuca Muzemba afirma que Angola vive uma “democracia de baixa intensidade” e alerta para o risco de ruptura entre governantes e governados.

Em entrevista à Rádio Essencial, o jurista e activista Mfuca Muzemba traçou um retrato crítico da actual realidade política angolana, defendendo uma mudança profunda baseada numa nova geração de líderes e numa cultura de participação cívica mais activa.

Coordenador da Comissão Instaladora do projecto político Esperança, ainda em processo de legalização no Tribunal Constitucional, Muzemba posiciona-se como uma das vozes emergentes do pensamento político nacional, apostando numa narrativa de renovação e ruptura com práticas que considera desgastadas.

Logo no início da conversa, o político manifestou pesar pela morte do deputado da UNITA, Montero Eliseu, descrevendo-o como “um jovem corajoso e com grande projecção”, cuja perda deixa um vazio difícil de preencher. A propósito, apelou à serenidade face às suspeitas que têm surgido em torno de mortes de figuras públicas, alertando para o clima de medo que pode afastar cidadãos da vida política.

“A política não se pode alimentar de sangue, tem de se alimentar de ideias”, afirmou, rejeitando qualquer normalização de violência ou suspeição no espaço público.

Para Mfuca Muzemba, Angola ainda não atingiu uma paz efectiva, apesar do fim da guerra.

“O calar das armas não significa paz. Sem desenvolvimento, não há paz. Quando há fome, criminalidade e insegurança, não podemos dizer que estamos em paz”, sublinhou.

O político defende que o país enfrenta um défice estrutural de confiança nas instituições, incluindo os tribunais, o Parlamento e a Comissão Nacional Eleitoral (CNE), apontando para uma percepção generalizada de descrédito.

“Como confiar numa CNE que não inspira confiança? Como acreditar numa justiça em que as pessoas já antecipam decisões?”, questionou.

Ao longo da entrevista, Mfuca Muzemba foi particularmente crítico em relação ao desempenho do Executivo e do partido no poder, o MPLA, afirmando que o país perdeu “uma oportunidade soberana” de se transformar.

“O MPLA já devia ter deixado o poder há muito tempo”, declarou, admitindo, contudo, que a alternância política não deve significar perseguição ou destruição do partido.

Segundo o responsável, há um crescente distanciamento entre governantes e governados, visível na falta de mobilização popular mesmo perante realizações do Executivo.

“Hoje, mesmo quando o Presidente inaugura hospitais, o povo não reage. Há um divórcio entre o povo e o governo”, observou.

Muzemba criticou ainda a falta de preparação de muitos jovens integrados na governação, acusando-os de procurarem benefícios pessoais em vez de servirem o interesse público.

Apesar das críticas ao MPLA, o líder do projecto Esperança considera que ainda não existe uma alternativa política sólida e consensual.

“Não há nenhum partido com projecção de vitória absoluta em 2027”, afirmou, referindo que a UNITA, apesar do seu peso político, não garante por si só uma mudança efectiva.

Ainda assim, reconhece a importância do papel da oposição e admite a possibilidade de alianças, incluindo com a Frente Patriótica Unida, dependendo da convergência de interesses.

Um dos pontos centrais da entrevista foi a defesa de um pacto político alargado, que permita restaurar a confiança e evitar conflitos no processo de transição.

“O país precisa de confiança, segurança e esperança. Precisamos sentar todos à mesma mesa e construir consensos”, defendeu.

Muzemba recordou exemplos históricos e episódios de tensão, sublinhando que Angola deve evitar cenários como os vividos na Guiné-Bissau após o assassinato de Nino Vieira.

Neste contexto, mencionou também dinâmicas internas no próprio MPLA, incluindo tensões e campanhas envolvendo figuras como o general Miala, que, segundo disse, evidenciam conflitos internos relevantes.

Outro eixo central do discurso foi a necessidade de uma mudança geracional efectiva, acompanhada de preparação e responsabilidade.

“Não basta dar espaço aos jovens. É preciso formar cidadãos com valores, consciência e capacidade de intervenção”, afirmou.

Muzemba lamentou a diminuição da participação cívica e apelou à mobilização da juventude através de associações e movimentos organizados.

“A qualidade da governação depende da qualidade da participação cívica”, destacou.

Eleições de 2027 e cenário político

O responsável admite que o MPLA pode perder as eleições de 2027, com base nos seus estudos e leitura do contexto político, mas alerta que a simples mudança de poder não resolverá automaticamente os problemas do país.

“Não basta tirar o MPLA. É preciso consertar o país”, afirmou.

Defende uma transição pacífica e estruturada, baseada em diálogo e estabilidade, rejeitando cenários de violência ou ruptura institucional.

Questionado sobre o financiamento do projecto Esperança, Mfuca Muzemba afirmou que o movimento não dispõe de recursos financeiros significativos, mas conta com mobilização popular e compromisso dos seus apoiantes.

“Não temos dinheiro, temos vontade”, disse, sublinhando que o projecto se baseia em ideias e não em promessas materiais.

Se chegasse ao poder, Mfuca Muzemba diz que actuaria imediatamente em áreas essenciais como educação, saúde, habitação, emprego e agricultura.

“Essas são as bases para resolver os problemas do país”, concluiu.

Ao longo da entrevista, Mfuca Muzemba apresentou-se como representante de uma nova geração política que pretende romper com práticas do passado e construir uma Angola baseada na inclusão, no desenvolvimento e na confiança institucional.

“A nossa geração não pode falhar. Temos de consolidar a democracia, garantir a justiça e criar prosperidade”, afirmou.

E deixou uma mensagem final:

“Não há Angola sem esperança — e não haverá esperança sem Angola.”

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