Segunda, 15 de Agosto de 2022
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Domingo, 03 Abril 2022 13:31

"Houve muito tempo perdido" em Angola no período de reconstrução, segundo Analista

O analista Jaime Nogueira Pinto considerou hoje, 20 anos após os acordos de paz em Angola, ter havido "muio tempo perdido" naquele país, que podia ter aproveitado "bem melhor" a alta do petróleo até 2014 em benefício da sua economia.

"Nos anos seguintes à paz, com o fim da guerra e o petróleo a preço alto (até 2014), houve um tempo de reconstrução que podia ter sido mais bem aproveitado para a reconversão da economia, sobretudo nos projetos agrícolas e agroindustriais, que são, por definição, de médio e longo prazo", afirmou Jaime Nogueira Pinto, em declarações por escrito à Lusa a propósito dos 20 anos de paz em Angola.

Os 27 anos de guerra civil entre a União para a Independência Total de Angola Unita (UNITA), hoje o maior partido da oposição, e Movimento Popular para a Libertação de Angola (MPLA, no poder desde a independência) terminou em 04 de abril de 2002, com a assinatura dos acordos de paz, no Luena.

O também advogado, com ligações em países africanos, salientou que após o início da paz houve uma mudança de protagonistas internacionais no país.

"O Ocidente - Estados Unidos e Europa - estava renitente no apoio e confiança a Angola e aos angolanos, o que deu lugar ao aparecimento e protagonismo da China", sublinhou.

Quanto ao modo como foi alcançada a paz em Angola, Jaime Nogueira Pinto realçou o facto de ter sido, "um processo longo e doloroso", com "muitos custos humanos" e "muito condicionado pelas implicações regionais, internacionais e ideológicas", assim como pela personalidade dos líderes, numa alusão, sobretudo a Jonas Savimbi, do lado da UNITA, que acabou por ser morto em combate, e de José Eduardo dos Santos, então Presidente de Angola.

No entanto, o processo de paz acabou por gerar "a unidade nacional" que "já se podia ver no facto de, ao contrário de outros conflitos africanos, não haver, no curso da guerra, massacres tribais, ou de ambas as partes terem rejeitado o Plano Schulz".

"Assim, à custa de duas gerações de angolanos, Angola integrou o processo normal de criação de Estados - guerra de independência e guerra civil. E a guerra civil, levando ao refúgio nas cidades, contribuiu para a destribalização", destacou.

Ao longo de todo o tempo, "o modo como foi conduzido este processo de paz esteve muito condicionado pelas implicações regionais, internacionais e ideológicas" bem como "pela personalidade dos líderes", frisou o analista.

A integração dos militares do lado dos vencidos, UNITA, nas Forças Armadas angolanas, foi para Jaime Nogueira Pinto um "aspeto decisivo", assim como a decisão de "não criminalizar ninguém".

"Foi graças a essa confiança e esquecimento que a paz aconteceu", afirmou.

"O processo de paz em Angola foi longo e doloroso, desde os Acordos de Bicesse até à conclusão oficial da guerra, em 04 de abril de 2002. Primeiro houve a tentativa do acordo, no quadro da pacificação da região e do fim da Guerra Fria, um processo em que o impasse da guerra a partir de 1987-1988 e da situação no Cuito-Cuanavale foi decisivo, na medida em que levou à primeira fase de desinternacionalização do conflito, com a independência da Namíbia e a retirada dos cubanos, consagrada nos acordos de Nova Iorque", sublinhou.

O resultado "foi também uma integração ao nível das elites e quadros dirigentes e uma pacificação consequente, que teve esse mérito".

Ainda assim, concluiu, "muito ficou por fazer no campo económico-social".

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