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Quarta, 28 Mai 2014 08:55

A memória e os elefantes - Artur Queiroz

O historiador Carlos Pacheco gosta de fazer o papel de mártir - Artur Queiroz O historiador Carlos Pacheco gosta de fazer o papel de mártir - Artur Queiroz

Está no seu direito. Mas para satisfazer as suas tendências tem de saber que há limites. O Presidente Agostinho Neto conduziu os angolanos num processo revolucionário que terminou com a Independência Nacional. A luta foi difícil, os obstáculos a transpor, inumeráveis. Os perigos eram muitos, a missão exigia mais sacrifícios do que permitia a força humana.

Um líder que conduziu o seu povo pela via agreste da liberdade até à Independência Nacional, somando sucessos e vitórias, merece o respeito e a admiração de todos os que se consideram angolanos. Muitos dos que se puseram contra a sua liderança, acabaram por reconhecer o seu génio político e as suas qualidade de dirigente revolucionário. Apenas ficaram de fora os que não têm dimensão para ser oposição a nada.

O historiador fala de repressão sangrenta e de crimes. Diz que é a sua experiência. Mas para ser levado a sério tem que explicar muito bem esta contradição insanável: o regime era ditatorial mas o "ditador" só esteve no poder entre 11 de Novembro de 1975 e 10 de Setembro de 1979, menos de quatros anos. Os mandatos presidenciais nas democracias são quase sempre de cinco ou mais anos.

O regime do MPLA é sanguinário e no 27 de Maio de 1977 matou milhares de pessoas. Mentira infantil que facilmente se comprova. Mas tal como Pacheco não quer falar do "juízo" de Nito Alves também eu não vou entrar nessa discussão. Mas Pacheco tem que explicar muito bem porque razão ele não foi morto. Esteve preso. Diga porque foi libertado e continuou a fazer a sua vida. Fez investigação histórica. Diga quem lhe pagou tudo isso. Até às eleições viveu entre nós. Depois foi fazer a sua vida. Ninguém o impediu. Nas ditaduras isso não costuma acontecer. Os ditadores não dão tantas oportunidades aos "inimigos".

O MPLA foi a organização política que proporcionou aos intelectuais a oportunidade de lutarem pela libertação do Povo Angolano. Carlos Pacheco, eu e muitos outros agarrámos essa oportunidade e assim demos sentido às nossas vidas. Por muito que façamos, jamais conseguiremos retribuir a honra que foi participarmos nesses combates. Devemos ao MPLA tudo o que somos de bom e positivo. Jamais conseguiremos pagar ao Povo Angolano os dias gloriosos que vivemos, com a pele encostada ao chão, na exaltante luta pela liberdade.

Pacheco, estás equivocado! Em Angola a ditadura acabou no dia 25 de Abril de 1974. Desde então, raia na nossa Pátria o Sol da Liberdade. Se tu não queres, é um direito que te assiste. Mas não lances lama sobre a figura ímpar de Agostinho Neto. Estás a ofender-te a ti próprio. Se és alguma coisa, a ele o deves. Tal como eu e todos os da nossa geração.

O 27 de Maio não é para esquecer. Nunca! É uma lição dolorosa, mas que nos ensinou muito. Ficámos sem os melhores, de um e do outro lado. A irresponsabilidade e a ambição fazem uma mistura explosiva que cega e bloqueia o pensamento. Eu aprendi em criança, com o mais velho Tuma, que jamais devemos tocar no ninho do marimbondo. Alguém se esqueceu de vos dar essa lição. Vejam bem a tragédia que causaram!  Isso sim, é preciso discutir. Porque os agressores foram os golpistas. Os agredidos não podem ser apontados a dedo como se tivessem culpa por terem resistido aos golpistas e sobrevivido.

Por Artur Queiroz

Jornal de Angola

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