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Sábado, 05 Abril 2014 11:25

Reconciliação nacional: A construção do presente e do futuro devia ser mais real

Contra todas as expectativas de há 12 anos, Angola continua a viver um saudável ambiente de paz e de reconciliação; nem mesmo os atropelos aos direitos constitucionais que se têm verificado, quer de quem está no poder, quer de quem faz oposição, significam que o objectivo principal, o de construção de um Estado efectivamente democrático, seja apenas mera retórica política.

A imagem deste edifício, de referência na cidade do Huambo, é bem representativa de um período difícil que vivemos até há 12 anos, que, felizmente, a cada dia, fica mais distante e para muitos milhares de angolanos, nem é bom recordar. Mas, factos são factos, e, apesar de hoje estar completamente reabilitado (foi uma pena), simboliza a destruição que se abateu sobre o nosso país, durante uma guerra atroz que se estendeu por longos 28 anos em que, de acordo com dados estatísticos que provavelmente estejam (por baixo) longe da realidade, deixaram para um pesado fardo de cerca de 2 milhões de mortos, 1,7 milhão de refugiados, milhares de órfãos, crianças, velhos, homens e mulheres desnutridos ou que morreram de fome e de doenças, milhares de minas espalhadas pelos campos, e um número infindável de infra-estruturas económicas e sociais, estradas, pontes, cidades, vilas e aldeias destruídas.

Hoje, no quadro da pacificação do país e da reconciliação nacional, parece descontextualizado atribuir culpas a qualquer dos actores, embora um das partes, ao abrigo dos direitos e responsabilidades imputadas ou imputáveis, se arrogue no dever de levantar o véu negro que cobre todo esse passado, para que a verdadeira história seja contada. Mas, é claro, existe uma série de versões, porque, em todo esse processo, há um rol de protagonistas, e, para que esse passado seja contado com transparência e isenção, os responsáveis por essa difícil empreitada serão obrigados a um recuo profundo aos primeiros tempos da penetração da colonização, com o comércio de escravos, seguindo-se a de consolidação do domínio da então potência colonial e à descolonização. E essa fotografia poderá ter pior aspecto do que a do edifício da Assembleia do Povo na mesma cidade (Huambo) que, mesmo esburacada e esventrada, resistiu para também fazer parte dessa história ainda mal contada.

Mas, enquanto isso, a marcha da paz continua. Com alguns percalços, é bem verdade, mas continua. E ainda bem! Por esse andar, dentro de mais 12 anos, as crianças de uma nova geração que nasceu no pós-guerra serão já homens feitos com 24 anos, e, para elas, esse passado pouco significado terá, até porque, nesse esforço de reconstrução acelerada, não houve, da parte de quem há muito governa, a preocupação de preservar uma parte dessa herança da destruição, para servir de memória na formação do novo homem angolano.

Huambo, Bié, Cuando-Cubango, Cunene, Zaire, Cuanza-Sul, para só citar, hoje ergueram os seus escombros e limparam os vestígios dessa guerra irracional. Apenas as chuvas, de vez em quando, nos locais mais recônditos, se encarregam de remover a terra e arrastar, no seu percurso, ossadas de alguns milhares de angolanos que morreram e, na maior parte dos casos, sem perceber afinal o que terá justificado tanta carnificina. Como elas (as chuvas), pretendem recordar-nos, a cada época, que, afinal, o passado não está de todo enterrado, que é preciso ir um pouco mais além para completar a harmonização entre nós mesmos.

É verdade que o país não se deve esquecer de todos aqueles que foram arrastados para essa guerra, muitos dos quais estão ainda desamparados. São efectivos das extintas FALA (da UNITA), das FAPLA (do então governo de Angola) e do braço armado da FNLA (o ELNA). Mas, os mesmos políticos da velha e da nova geração cercados hoje de privilégios, alguns até auferindo dois salários (um como deputados e outro como oficiais na reserva), também não se deviam esquecer das vítimas civis do longo conflito.

Onde andas tu, Margarida João, que, ao fechares os olhos e tapando os ouvidos, continuas a ouvir a explosão do artefacto disparado por quem até identificaste, contra o prédio onde vivias ceifando a vida de 35 vizinhos e amigos?

Onde anda Miquirina, uma jovem de 23 anos, que quando corria à busca de socorro para salvar o primo Félix - que com apenas sete anos, a apanhar lenha no mato pisou numa mina - acabou também por pisar noutra que lhe amputou a perna? (in José Resende, Angola 38 anos de guerra).

Ninguém mais se recorda de ti Miquirina, encontrada anos mais tarde com quatro filhos, dividindo um acampamento de deslocados instalado na escola militar Comandante Gika, nos arredores da cidade do Huambo. Hoje, ninguém mais se recorda dos jardins e quintais da cidade do Kuito, transformados em cemitérios, das casas, paredes e muros destruídos por metralhas e obuses, quais cenários comparados com o que se viu durante a Segunda Guerra Mundial.

Do mesmo modo, provavelmente, também ninguém mais se lembra que, com a assinatura do memorando de entendimento que pôs fim à guerra, fomos abandonados pela comunidade internacional, que tal qual Pilatos, lavou as mãos e obrigou quem governava (e governa) a seguir por vias que, não sendo as de primeira opção, acabaram por alavancar o país para um estágio de reconstrução e de desenvolvimento reconhecido no mundo inteiro.

O que é preciso é continuar a acreditar que somos capazes, gerindo melhor os nossos próprios recursos, corrigindo os desvios que existem e sermos mais exigentes com a qualidade de serviços e da cooperação que absorvemos. Fechados ao mundo, hoje, não se conseguirá atingir o progresso desejado, mas, também ter as portas escancaradas para quem tem o país como o El Dourado, pode significar uma ameaça para a nossa própria soberania.

Mas, sente-se ainda que, entre o consolidar da paz que tanto custou aos angolanos, e a necessidade de se acelerar o desenvolvimento, tem faltado algum sentido patriótico ao poder. É preciso que se ganhe consciência de que o país e os seus recursos a todos nós pertencem e que o verdadeiro combate à pobreza passa pela implementação de projectos que reduzam, efectivamente, as assimetrias entre o interior e o litoral, que contribuam para a fixação das populações, mas que tenham igualmente a capacidade de retirar dos principais centros populacionais, como Luanda, o excesso de pessoas que elas comportam.

O Governo deve tornar o interior mais atractivo, criando oportunidades para que os jovens se sintam motivados a descobrir o outro lado do belo do país em paz, que não se resume à selva em que se transformou Luanda.

Ramiro Aleixo

 

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