A revelação foi feita esta quinta-feira pelo serviço francês de vigilância e combate à desinformação estrangeira, Viginum, durante uma conferência de imprensa em Paris. Segundo o organismo, a BlackCore terá utilizado métodos semelhantes aos detectados em França para conduzir campanhas de influência digital noutros países, incluindo Angola, Togo, Escócia e Estados Unidos.
O director do Viginum, Marc-Antoine Brillant, afirmou que as investigações técnicas realizadas pela entidade permitiram estabelecer ligações entre diversas operações online e a empresa israelita.
“Este modo de actuação não se limitou às eleições municipais em França. Parece igualmente ter sido utilizado para realizar operações de interferência digital estrangeira em países e regiões como Angola, Togo, as eleições na Escócia e as eleições municipais de Nova Iorque”, declarou.
Apesar das conclusões apresentadas, as autoridades francesas admitem que ainda não foi possível determinar quem terá financiado ou encomendado as alegadas operações. Brillant sublinhou que as investigações continuam em curso e que, até ao momento, não foi identificado qualquer patrocinador por detrás das campanhas detectadas.
França pede explicações a Israel
O ministro francês das Forças Armadas, Sébastien Lecornu, revelou que Paris solicitou formalmente esclarecimentos ao Governo israelita sobre as actividades atribuídas à BlackCore. Além disso, a França pediu cooperação às autoridades de Israel para tentar identificar os responsáveis pela eventual campanha de desinformação.
“Solicitámos assistência e explicações. Se uma empresa privada francesa estivesse envolvida em operações semelhantes contra Israel, acredito que as autoridades israelitas fariam exactamente o mesmo”, afirmou o governante francês.
Até ao momento, a embaixada de Israel em Paris não comentou publicamente as alegações.
Suspeitas surgiram após eleições em França
As suspeitas sobre a BlackCore ganharam força após a divulgação de informações segundo as quais a empresa poderá ter estado envolvida numa campanha de difamação online contra três candidatos do partido França Insubmissa (LFI), formação política de esquerda que defende posições pró-palestinianas.
As autoridades francesas acreditam que a campanha visava influenciar o ambiente político durante as eleições municipais realizadas este ano.
Posteriormente, a investigação foi alargada, levando os especialistas a identificar actividades semelhantes noutras geografias.
Escócia e Nova Iorque também sob investigação
Além de Angola e Togo, o relatório do Viginum refere alegadas operações de influência relacionadas com processos eleitorais na Escócia e em Nova Iorque.
No caso escocês, foram detectadas contas associadas à BlackCore que terão visado o primeiro-ministro John Swinney. O líder escocês tem sido uma das vozes europeias mais críticas da ofensiva israelita em Gaza, classificando a situação como uma catástrofe humanitária.
Já em Nova Iorque, as autoridades francesas afirmam ter identificado actividades ligadas às eleições municipais de 2025, embora não tenham especificado quais os candidatos ou entidades visadas.
Nem as autoridades escocesas nem os responsáveis eleitorais norte-americanos comentaram, para já, as conclusões divulgadas por França.
Empresa apagou presença digital
Antes de remover a sua presença online após ser alvo de questionamentos da imprensa internacional, a BlackCore apresentava-se como uma empresa especializada em operações de influência, tecnologia e cibersegurança.
No seu material promocional, a organização afirmava fornecer a governos e campanhas políticas ferramentas avançadas para moldar narrativas e gerir operações de informação em ambientes digitais.
As referências a Angola no relatório francês não detalham quais os processos políticos ou eleitorais que poderão ter sido afectados, nem indicam a existência de qualquer envolvimento das autoridades angolanas. Ainda assim, a inclusão do país na lista de territórios mencionados pelo Viginum reforça as preocupações internacionais sobre o crescimento das operações de influência digital e da manipulação de informação em períodos eleitorais.
A investigação francesa prossegue, enquanto vários governos aguardam esclarecimentos adicionais sobre o alcance e os responsáveis por estas alegadas campanhas de interferência.

