Em declarações à Lusa, a propósito do lançamento do livro Breve História de Angola desde a Independência (1975-2025), marcado para 5 de junho, em Lisboa, Rui Verde sustenta que o processo sucessório foi “mal conduzido” e alimenta um ambiente de “especulação” que está a dividir as elites do MPLA.
“A incerteza está a dividir as elites do MPLA e, por ligação direta, vai dividir as bases”, afirmou o investigador, associado ao Centro de Estudos Africanos da Universidade de Oxford e ao Centro de População e Desenvolvimento da Universidade Paris-Cité.
Segundo Rui Verde, mesmo que João Lourenço consiga manter a liderança partidária no congresso previsto para dezembro e o candidato apoiado por si vença as eleições presidenciais de 2027, tal cenário poderá traduzir-se numa vitória sem verdadeira legitimidade política.
“Pode ser uma vitória de Pirro, vazia, sem apoio”, advertiu.
Crise sucessória expõe fragilidades do partido
No livro, que procura traçar uma síntese dos 50 anos da independência angolana, Rui Verde identifica uma “crise interna de sucessão presidencial” no MPLA, agravada pela ausência de mecanismos claros e transparentes para a escolha do próximo candidato presidencial.
Na sua análise, a disputa interna revelou fissuras profundas no partido e expôs dificuldades na renovação da liderança, precisamente numa altura em que João Lourenço se aproxima do fim do segundo e último mandato constitucional.
O investigador recua às eleições de 1992 para explicar a configuração atual do sistema político angolano. Após esse escrutínio — cujos resultados presidenciais continuam envoltos em controvérsia — o país regressou à guerra civil, levando posteriormente à adoção de um novo modelo constitucional.
A Constituição de 2010 eliminou a eleição direta do Presidente da República, estabelecendo que o chefe de Estado passa a ser automaticamente o cabeça de lista do partido mais votado nas eleições legislativas.
“A partir daí dá-se uma fusão completa dos poderes do Estado”, sustenta Rui Verde, considerando que o modelo criou um sistema de “presidencialismo altamente concentrado”, com reduzidos mecanismos de fiscalização política.
“As eleições passaram a ser um plebiscito presidencial em 2010 e ainda o são hoje”, acrescentou.
Lourenço iniciou mudanças, mas reformas ficaram incompletas
O investigador recorda que João Lourenço chegou ao poder em 2017 como candidato de compromisso, numa altura em que o então Presidente José Eduardo dos Santos procurava assegurar influência sobre a sucessão.
A estratégia passava por manter a liderança do MPLA nas mãos de José Eduardo dos Santos, permitindo-lhe continuar a exercer influência sobre o novo Presidente.
Contudo, segundo Rui Verde, Lourenço procurou rapidamente afirmar autonomia política, lançando uma campanha de combate à corrupção e prometendo reformas económicas profundas.
“Enviou uma mensagem clara de querer mudar”, refere.
Apesar de reconhecer avanços em áreas como a liberdade de imprensa e o fortalecimento do espaço cívico, o investigador considera que o impulso reformista perdeu força ao longo dos anos.
“O que parece é que ficou a meio da ponte”, afirmou, admitindo que apenas no futuro será possível compreender plenamente os fatores que condicionaram o processo de reforma.
MPLA desgastado e UNITA reforçada
O cenário eleitoral de 2027 permanece, na opinião de Rui Verde, uma incógnita. O desgaste acumulado pelo MPLA após cinco décadas no poder, aliado às consequências prolongadas da crise económica iniciada em 2014, tem vindo a alimentar o crescimento da oposição.
“Há muita sensação — e na política vive-se muito de perceções — que a UNITA pode ganhar”, observou.
O investigador considera que a principal força da oposição passou por uma profunda transformação nas últimas duas décadas, abandonando a imagem associada ao período da guerra civil.
“Esta UNITA não é a velha UNITA”, defendeu.
Segundo Rui Verde, o partido tornou-se mais urbano, mais inclusivo e mais estruturado, apresentando-se atualmente como uma alternativa credível ao MPLA.
A liderança de Adalberto Costa Júnior também é apontada como um fator relevante para o crescimento político da UNITA.
“É hoje um partido popular. Se mais que o MPLA, veremos”, afirmou.
Risco de contestação pós-eleitoral preocupa analistas
Perante um cenário eleitoral potencialmente equilibrado, Rui Verde alerta para a necessidade de garantir transparência e credibilidade no processo eleitoral.
Na sua perspetiva, não bastará ao MPLA vencer as eleições; será necessário convencer a sociedade da legitimidade dos resultados.
“Se não ganhar, não basta ao MPLA vencer, tem que convencer que a vitória é limpa”, defendeu.
O investigador alerta para o risco de contestação pós-eleitoral semelhante ao observado recentemente noutros países africanos, caso persistam dúvidas sobre a transparência do escrutínio.
“A sociedade civil e as pessoas estão muito à flor da pele”, advertiu.
Quem será o sucessor?
Questionado sobre possíveis sucessores de João Lourenço, Rui Verde admite que as especulações dominam atualmente o debate político angolano.
Entre os cenários apontados circulam hipóteses tão distintas como a escolha de uma mulher ou de uma figura militar para garantir estabilidade interna. No entanto, o investigador rejeita qualquer previsão.
“É puro vudu. Não faço a mínima ideia. Não há uma pessoa que se destaque”, concluiu.

