A ativista Rosa Conde, porta-voz da organização da marcha contra os abusos sexuais no país, esclarece que o Governo Provincial de Luanda e o Comando Provincial da Polícia Nacional já têm em sua posse a carta que comunica os motivos da manifestação e os trajetos a serem percorridos no próximo sábado, 10 de janeiro.
O protesto inicialmente agendado para o sábado anterior foi impedido pelas autoridades policiais, sob a alegação de que a manifestação não teria sido autorizada.
Rosa Conde garante, no entanto, que a organização cumpriu todos os procedimentos legais. À DW, a ativista afirma que o grupo "deu entrada da carta no Governo Provincial, que acusou a receção. E fizemos o mesmo no Comando Provincial, onde também houve acusação de receção", acrescenta.
A marcha visa repudiar o aumento dos casos de violência sexual no país. O protesto foi motivado por um crime que chocou a opinião pública, contra uma jovem de 15 anos, abusada sexualmente por dois homens no município de Viana. O vídeo da agressão circulou amplamente nas redes sociais, gerando forte indignação nacional.
Apesar de não se tratar de um protesto antigovernamental, a manifestação de sábado passado não foi permitida.
17 detenções
Maria do Carmo, uma das promotoras da marcha reprimida na província de Benguela, entende que o Governo continua a intimidar os cidadãos que aderem às manifestações. Segundo ativistas, 17 jovens foram detidos no sábado passado, entre os quais uma menina de 13 anos de idade.
"O regime quer incutir medo. Esta seria uma marcha que o regime devia aproveitar e de que até devia tirar proveito político. Quando se reprime uma marcha de repúdio ao abuso sexual, isso demonstra que as violências sexuais são tratadas de forma institucional", diz.
2026 é um ano pré-eleitoral, período em que muitos angolanos começam a fazer o balanço das promessas eleitorais feitas pelo Presidente João Lourenço.
A exigência de resultados poderá intensificar-se através de manifestações, segundo relatos recolhidos junto de cidadãos. Há também quem acredite que a repressão policial aos manifestantes será igualmente intensificada.
Para Maria do Carmo, a brutalidade registada no final de julho de 2025, durante os protestos dos taxistas, foi um sinal de alerta. A ativista considera que "o que o regime quer incutir nas nossas cabeças é o medo: Medo de sermos detidos, presos ou mortos. Daqui para a frente, as manifestações vão enfrentar ainda mais repressão”.
"Estamos a entrar numa fase muito difícil, em que quem tenta sair bem são os partidos políticos, não o povo. Quem sofre é sempre o povo", conclui Maria do Carmo.
"Continuaremos a manifestar-nos"
Mesmo assim, Rosa Conde afirma que, nem detenções, nem mortes, impedirão a população de exigir os seus direitos.
"Caso continuem a violar os direitos fundamentais dos cidadãos, continuaremos a manifestar-nos. O facto de termos parado por algum tempo não significa recuo ou medo. Parámos para traçar novas estratégias de enfrentamento a um regime ditatorial e sangrento como o que temos", afirma.
Também o jornalista Hossi Sojamba, um dos três profissionais cujos meios de trabalho foram apreendidos pela Polícia Nacional no sábado passado (03.01), considera que os agentes continuarão a cumprir ordens para reprimir e intimidar a imprensa que cobre os protestos.
"Com o aumento do descontentamento social, o Governo tenderá a endurecer ainda mais os seus métodos de repressão", afirma. DW

