Numa publicação intitulada “O 27 de Maio de 1977, a Juventude e o Futuro”, o histórico dirigente do MPLA sustenta que o ressurgimento de temas ligados ao chamado “fraccionismo” está a ser utilizado para desviar as atenções dos jovens angolanos dos desafios reais que afectam o presente e o futuro do país.
Segundo Marcolino Moco, a reactivação da Comissão para a Implementação do Plano de Reconciliação em Memória das Vítimas dos Conflitos Políticos (CIVICOP), bem como a divulgação de biografias de antigos responsáveis ligados aos acontecimentos de 1977, levanta dúvidas quanto às verdadeiras motivações políticas por detrás da iniciativa.
O político recorda que o Presidente da República, João Lourenço, já havia pedido desculpas públicas às vítimas e familiares afectados pelos acontecimentos do 27 de Maio, defendendo, por isso, que a insistência no tema poderá estar relacionada com disputas internas no seio do MPLA, numa fase em que se aproxima o próximo congresso do partido.
Para Moco, sectores da elite política continuam excessivamente concentrados na preservação do poder, numa lógica que considera prejudicial ao interesse nacional. O antigo governante alerta igualmente para aquilo que descreve como tentativas de ressuscitar narrativas da guerra civil, incluindo referências às chamadas “bruxas da Jamba”, com o objectivo de voltar a mobilizar militantes contra a UNITA.
Dirigindo-se particularmente à juventude, Marcolino Moco afirma que os jovens devem evitar ser instrumentalizados por debates políticos centrados exclusivamente no passado, advertindo que essas discussões pouco contribuem para a construção de soluções concretas para os problemas do país.
No texto, o antigo primeiro-ministro defende que o debate nacional deveria concentrar-se em questões como os acontecimentos de Monte Sumi e Cafunfo, mortes em manifestações pacíficas, alegados presos políticos, o adiamento das autarquias, a degradação das infra-estruturas rodoviárias e o combate à corrupção, que considera marcado pela selectividade.
Moco acusa ainda o Executivo de canalizar recursos para a manutenção do poder político, em detrimento de investimentos capazes de melhorar as condições de vida da população e criar perspectivas para a juventude angolana.
Ao abordar a necessidade de reconciliação nacional, o ex-dirigente do MPLA apelou à construção de um ambiente político mais tolerante e virado para o futuro, defendendo que Angola deve ultrapassar a constante instrumentalização dos traumas históricos.
Como exemplo de maturidade democrática, referiu a alternância política em Cabo Verde, com o regresso do PAICV ao poder após vários anos fora da governação, sublinhando que esse processo decorreu sem convulsões.
Marcolino Moco manifestou ainda preocupação com o que considera ser o enfraquecimento do espírito reformista saído do último congresso da CEAST, embora tenha saudado o recente manifesto de intelectuais angolanos, que classificou como uma iniciativa pacífica em defesa do futuro do país.
“Caminhemos em paz, em direcção ao Futuro”, concluiu o antigo governante angolano.

