O general na reforma e histórico militante do MPLA elogiou o debate entre o socialista António José Seguro André Ventura, o líder do Chega, de extrema-direita, na sua página de Facebook, onde disse que "a divergência política não impede a convergência em matérias essenciais do Estado, quando o diálogo é feito com clareza, contenção e sentido de serviço público".
E isto, que é claramente um recado interno, mas que Higino Carneiro preferiu enviá-lo através de um subterfúgio, foi o mote para este acrescentar que "num tempo em que o radicalismo tende a substituir o diálogo, este exemplo deixa uma lição útil para os PALOP e para África em geral: a política fortalece-se quando se privilegia a palavra e a escuta", destacou o político.
"Como bem recorda Bonga, em "Falar de Assim", é preciso conversar para não guerrear", concluiu Higino Carneiro, no que pode ser interpretado como um recado para o interior do seu partido onde a liderança procura impedir de forma clara e inequívoca que se apresente a concorrer para ser o próximo presidente do MPLA e, concomitantemente, da República.
Refira-se que no mês de Julho do ano passado, Higino Carneiro oficializou a sua intenção de disputar a presidência do MPLA, numa altura em que o partido se prepara para o seu IX Congresso Ordinário.
A decisão, segundo o próprio, surge após um período de profunda reflexão e em resposta ao clamor de inúmeros militantes de base e dirigentes de vários escalões.
Num manifesto divulgado pelo Novo Jornal, Higino defende uma revalorização do militante de base, uma reestruturação dos Comités de Acção do Partido "CAP" e o fim da "cultura do bajulador".
O político afirma que é preciso ouvir quem está mais próximo do povo e critica a escolha automática de administradores municipais como secretários locais do partido, sem experiência política comprovada.
Depois de manifestar a intenção de se candidatar, Higino Carneiro, foi indiciado, num processo-crime, pela utilização de fundos públicos para fins particulares, quando exercia o cargo de governador da antiga província do Kuando Kubango.
Este indício, nos termos da lei, configura crime de peculato, de acordo com o Código Penal Angolano.
Noutro processo-crime, Higino Carneiro está indiciado no crime de burla qualificada por ter recepcionado de uma empresa privada mais de 60 viaturas, no período em que foi governador de Luanda.
Neste processo-crime, Higino Carneiro é indiciado por ter distribuído as referidas viaturas a várias pessoas, sem proceder ao respectivo pagamento.
Estes processos judiciais estão a ser repetidamente assinalados nos media nacionais, tradicionais e redes sociais, como parte da estratégia do poder para o afastar da corrida à liderança do MPLA, pelo facto de terem emergido já num contexto em que se conheceu a sua vontade de se fazer eleger líder do maior partido nacional.
E ainda porque, embora não de forma clara, João Lourenço, enquanto presidente do MPLA, se mostrou claramente contra a sua candidatura, aludindo ao facto de não querer alguém "mais cansado" que ele, a correr para liderar o partido.
E com este "post" no Facebook, Carneiro, numa interpretação possível, está a convidar o líder do seu partido para um diálogo democrático sobre o próximo Congresso do MPLA, onde tudo deverá acontecer e ficará definido quem será o candidato do MPLA à Cidade Alta. NJ

