Sexta, 19 de Agosto de 2022
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Domingo, 03 Julho 2022 13:39

José Eduardo dos Santos "dividia sempre, para melhor reinar - Rafael Marques

Rafael Marques escreve que "explosiva disputa familiar" em Angola não surpreende. José Eduardo dos Santos "dividiu sempre, para melhor reinar. Assim foi na vida pública, assim será na vida privada".

A “explosiva disputa familiar” em torno do internamento hospitalar de José Eduardo Santos “não surpreende” Rafael Marques, jornalista e ativista angolano. O antigo Presidente “dividiu sempre, para melhor reinar. Assim foi na vida pública, assim será na vida privada“, pelo que, perante o “iminente desaparecimento” de José Eduardo dos Santos, outra coisa não seria de esperar que não “uma enorme confusão para resolver”.

Esta é a leitura que Rafael Marques faz num texto publicado no Maka Angola, uma crónica intitulada “Ao Pó Tornarás”. Embora o jornalista considere “espantoso” que seja o Estado a pagar as despesas associadas ao internamento na clínica em Barcelona, Rafael Marques elogia João Lourenço por não repetir o padrão de “sequestro do cadáver” que o próprio José Eduardo dos Santos (JES) fomentou na sua égide, em relação aos corpos dos seus inimigos.

Durante décadas, os cadáveres dos derrotados foram sequestrados pelo poder político angolano. Nito Alves, amigo próximo de JES, viu o seu cadáver raptado até aos dias de hoje. Os dirigentes da UNITA, mortos em 1992, também não tiveram direito a enterros nem cadáveres até hoje, o mesmo acontecendo com Jonas Savimbi. Diga-se, em abono da verdade, que apenas João Lourenço abandonou esta política do sequestro do cadáver do inimigo, entregando, dentro do possível, a cada um o que é seu”, escreve o jornalista.

“Este apagamento do cadáver foi uma política de Estado implementada por JES”, diz Rafael Marques, que considera essa prática a mais “profunda forma de desumanização do Outro, do inimigo”. “Dos Santos não elevou a humanidade dos angolanos. Rebaixou-a. Degradou-a ao ponto de a morte ser um espetáculo banal no país“, critica o jornalista.

Quando se acredita no “iminente desaparecimento” do ex-Presidente, Rafael Marques escreve que “a herança política de JES é a da pilhagem e do sequestro de um país, vergado aos interesses de uma oligarquia por ele criada. Levará bastante tempo para Angola se libertar dessa pesada herança de corrupção e destruição moral de toda uma sociedade, dos angolanos em geral”.

Até lá, o jornalista avisa quem está de fora que não deve achar que a polémica seja “reflexo de um interesse popular”. “Não se tomem as estratégias de massificação das redes sociais como realidades, nem se tomem as amplas notícias publicadas, sobretudo a nível internacional, como reflexo de um interesse popular. Tudo isso resulta sobretudo de manipulações e de procura de sensacionalismo”, advoga.

JES poderia ter deixado como herança um país próspero e orgulhoso. Deixou uma derrocada confusa em desagregação. Não há imortalidade que lhe advenha”, escreve Rafael Marques.

Em conclusão, o jornalista defende que os cidadãos e os líderes devem “quebrar o ciclo de ódios, divisões, de desconfiança e de intrigas que levaram o país à destruição”. “Temos de traçar um novo caminho de humanização, de confiança e solidariedade entre os angolanos, quebrando os ciclos destrutivos do passado“, conclui. Observador

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