O Governador do Banco Nacional de Angola (BNA), Manuel Tiago Dias, afirmou que a instituição tomou conhecimento prévio do negócio envolvendo o BPI e o Grupo Carrinho, mas que ainda não recebeu a comunicação formal nem a documentação de suporte necessária para proceder à sua apreciação.
Segundo o Governador, as partes deram conhecimento prévio da operação ao banco central por uma questão de cortesia, antes de tornarem público o negócio. Manuel Tiago Dias esclareceu ainda que o BNA não pretende interferir nos negócios das instituições sob a sua supervisão, ressalvando, no entanto, que poderá intervir caso sejam identificadas violações às normas em vigor.
"Se os negócios seguirem as regras estabelecidas, não deve haver intervenção absolutamente nenhuma", declarou.
Questionado sobre uma eventual fusão no sector, o Governador disse que o BNA não recebeu, até ao momento, informação formal que permita confirmar essa intenção, garantindo que, caso a operação venha a ser apresentada, será analisada pela autoridade reguladora nos termos da legislação em vigor.
Está em causa o acordo anunciado pelo BPI para a venda dos 33,35% que detém no Banco de Fomento Angola (BFA) à Congolian Financial SA (CFSA), sociedade ligada ao Grupo Carrinho, por um valor que poderá ascender a cerca de 432 milhões de euros, repartidos entre tranches fixas e uma componente variável associada aos dividendos do BFA relativos a 2026.
A concretização da operação depende ainda da não oposição do BNA e de um parecer da Comissão de Mercado de Capitais (CMC), que deverá confirmar se a aquisição desencadeia, ou não, uma oferta pública de aquisição obrigatória sobre o restante capital do banco.
O interesse do Grupo Carrinho pelo sector financeiro não é recente. Em 2021, a Carrinho Empreendimentos tornou-se a primeira empresa totalmente nacional a fazer uma aquisição em bolsa, ao comprar a totalidade do Banco de Comércio e Indústria (BCI) por 16,5 mil milhões de kwanzas, num leilão histórico realizado pela Bolsa de Dívida e Valores de Angola (BODIVA).
Três anos depois, em 2024, o grupo avançou para o Banco Keve, então já classificado como instituição de importância sistémica no país. Após um processo de apreciação pela Autoridade Reguladora da Concorrência (ARC), que concluiu não haver entraves à concorrência, o Grupo Carrinho ficou autorizado a adquirir entre 65% e 80% do capital do Banco Keve.
Mais recentemente, o grupo reforçou a sua presença no sector ao anunciar deter uma participação qualificada de 7,61% no BFA, o segundo maior banco do sistema financeiro angolano — posição construída, em parte, através da compra de acções na oferta pública inicial em que o Estado e o BPI dispersaram 30% do capital do banco.
Com a agora anunciada compra da participação do BPI, o Grupo Carrinho poderá reforçar significativamente essa posição, somando participações directas em três instituições financeiras — BCI, Banco Keve e BFA —, um movimento que tem sido lido no mercado como parte da estratégia do grupo, fundado em 1996 e com origem no sector agroalimentar, para se afirmar como um dos principais agentes de um eventual processo de consolidação da banca angolana.

