Numa publicação divulgada sob o título “Ainda sobre o ‘pacto de qualquer coisa’, em Angola: a propósito da iniciativa de Adalberto Costa Júnior”, o antigo governante afirmou que há muito acredita que o país necessita de um entendimento político mais amplo para ultrapassar os problemas estruturais que marcam a sua história recente.
Segundo Marcolino Moco, o pacto poderá concretizar-se através de diferentes modalidades, incluindo uma via interpartidária, com participação de todos os partidos reconhecidos, sobretudo os ligados à luta de libertação nacional. O político considera que os falhanços verificados nesse processo histórico continuam na origem de muitos dos problemas enfrentados por Angola.
O antigo secretário-geral do MPLA considera plausível a iniciativa apresentada por Adalberto Costa Júnior, líder da UNITA, defendendo, contudo, que o entendimento nacional também pode surgir através de uma via suprapartidária liderada pela sociedade civil.
Nesse contexto, apontou como exemplo o Congresso da Reconciliação Nacional promovido pela CEAST, iniciativa lançada no ano passado e que espera ver retomada.
Marcolino Moco sustentou igualmente que os processos eleitorais, apesar de importantes, não devem ser encarados como solução exclusiva para os desafios do Estado angolano. Para o antigo governante, a ideia de que as eleições representam “o alfa e o ómega” da construção democrática em países africanos revela-se insuficiente perante a realidade política do continente.
Na publicação, o político argumenta que muitos conflitos resultam do medo da perda do poder, sobretudo em contextos de governação prolongada e marcados por alegadas irregularidades acumuladas ao longo dos anos.
Referindo-se ao próprio MPLA, Marcolino Moco afirmou que o receio da alternância política se agravou devido a divisões internas e a sentimentos de “ódio e vingança” entre figuras do partido. O antigo primeiro-ministro menciona ainda críticas de apoiantes do falecido José Eduardo dos Santos contra qualquer entendimento político que pudesse impedir actos de vingança contra o actual Presidente da República, João Lourenço.
Na mesma reflexão, acusa João Lourenço de promover perseguições selectivas contra membros do MPLA que não apoiam a sua continuidade no poder.
Para Marcolino Moco, a realidade política angolana demonstra a necessidade de um “pacto de transição” capaz de pôr fim ao ciclo de “vinganças e contra-vinganças”, que, no seu entender, tem contribuído para fragilizar o Estado e as instituições nacionais.
O antigo governante aponta os exemplos da África do Sul e da Namíbia como referências positivas de processos de reconciliação e clarificação política, defendendo que esses países conseguiram criar modelos de governação menos centrados na permanência contínua no poder.
Marcolino Moco anunciou ainda que pretende apresentar futuramente um resumo do conteúdo desse eventual pacto, com base nas ideias desenvolvidas no livro “Angola: por uma nova partida”, publicado em 2019, obra em que faz uma crítica ao modelo das eleições multipartidárias e ao oportunismo político.

