E agora que a UNITA, como partido político submeteu a sua ideia de “pacto para a estabilidade e reconciliação nacional” ao PR João Lourenço, alguns perguntam-me se estou na mesma plataforma ideológico-partidária da UNITA. E qual é a necessidade disso, para um país independente há 50 anos, em paz há 24 anos e com eleições regulares a funcionar? Não será um truque para viabilizar uma próxima vitória eleitoral para a UNITA?
Para ser franco, e, essas coisas da nossa vida pública não devem ser escamoteadas, pelo contrário, devem ser publicitadas; por razões que se prendem com a sua vasta agenda, o Presidente Adalberto da UNITA teve a amabilidade de me por ao corrente do seu documento, já depois de ter sido entregue (e anunciado publicamente) ao PR. Claro que o examinei e em conversa, olhos nos olhos, manifestei a minha ideia de que aquele documento reflete o mesmo que eu entendo dever ser feito em Angola, se queremos, efectivamente, implantar uma verdadeira Paz e Reconciliação nacionais, capazes de propiciar a estabilidade como premissas para o fim das misérias que temos vivido, desnecessariamente.
No entanto, deve ficar claro que esta coincidência de ideias no plano da solução do que tenho chamado de problema fundamental de Angola, deriva essencialmente de que se alimenta da mesma fonte de inspiração: a crença, adquirida, ao longo do tempo, de que não é imitando, milimetricamente, o modelo euro-ocidental de que eleições enunciadas apenas no plano formal, sem mais nada, resolvem, automaticamente, os problemas em qualquer parte do mundo. A UNITA teve o seu caminho e tem interesses, com legitimidade político-partidária, para chegar a essa conclusão. O meu caminho autónomo é conhecido, a ponto de me ter afastado da orientação do que é o único partido em que militei, o MPLA (entre 1974 a 2009); refletido em abundantes declarações e participações públicas e escritas, inclusive, em vários livros de intervenção académica e cívico-política.
A necessidade desse “pacto”, que se resume no facto de termos de remover o medo de perder o poder, deixando a governação na quase exclusiva actividade de manutenção do poder, através da "prisão" das instituições do Estado e da manipulação política – como, infelizmente, acontece em vários países africanos – deriva do facto de que, apesar de muitas aparências, não deixamos de ser um "Estado de Exclusão", que nasceu em 1975. A UNITA faz bem em colocar este desafio nas mãos do PR, já que é ele a única entidade estadual dotada dos mais extensos poderes conferidos, muitos deles de forma equivocada, pela Constituição de 2010. Seria uma honra e uma glória histórica para ele mesmo, se JLO assumisse este desafio. Infelizmente os antecedentes que vem do seu antecessor JES e que com ele se agravaram, até mesmo dentro da gestão sucessória do seu próprio partido, não nos auguram grandes esperanças.
Por fim, se a visita do Papa Leão XIV não se limitar a um acto meramente protocolar, mas antes contribuir para dar substância à sua mensagem de paz, reconciliação e concórdia universais — em linha com as conclusões do Congresso da Reconciliação Nacional promovido pela CEAST no ano passado —, tal representaria um contributo significativo para o país, que certamente o saberá reconhecer.
Por Marcolino Moco

