Segundo a fonte do Ministério, Angola entrou no mercado de Eurobonds em 2015 com uma emissão inaugural de 1,5 mil milhões de dólares. Em 2018, reforçou a sua presença com duas novas emissões - uma de 1,75 mil milhões a uma taxa de 8,25% e outra de 1,25 mil milhões a 9,38% - totalizando 3 mil milhões de dólares, incluindo títulos com maturidades mais longas.
A emissão de Eurobonds por Angola reacende um debate recorrente nas economias emergentes: até que ponto recorrer aos mercados internacionais é um sinal de maturidade financeira ou um sintoma de fragilidade estrutural?
À primeira vista, a operação pode ser interpretada como um sucesso. Num contexto global exigente, marcado por taxas de juro elevadas e maior aversão ao risco, conseguir mobilizar mais de 2,5 mil milhões de dólares demonstra que Angola ainda capta a atenção dos investidores. Este facto não é trivial.
Contudo, a leitura não pode ficar pela superfície.
Angola o nosso país, continua fortemente dependente do petróleo, o que torna as suas receitas públicas vulneráveis a choques externos. Emitir dívida em dólares, nestas circunstâncias, é assumir um risco significativo: qualquer queda no preço do petróleo ou desvalorização da moeda nacional amplifica o peso da dívida.
Mais preocupante ainda é a dinâmica cumulativa. Quando um país com dívida já elevada recorre a novos empréstimos, frequentemente parte desse financiamento serve para pagar dívida antiga - um ciclo que pode rapidamente tornar-se insustentável.
Por outro lado, há um argumento pragmático: sem acesso a financiamento externo, muitos países ficariam paralisados, incapazes de investir ou estabilizar as suas economias. A questão central, portanto, não é emitir ou não emitir Eurobonds - é como e para quê.
Se os recursos forem canalizados para investimentos produtivos, nomeadamente: infraestruturas, diversificação económica e capital humano, então a dívida pode funcionar como alavanca de crescimento. Caso contrário, transforma-se num fardo que compromete as gerações futuras.
Em suma, os Eurobonds não são, por si só, nem bons nem maus. São uma ferramenta. No caso de Angola, o risco não está na emissão em si, mas na sua repetição sem uma estratégia clara de transformação económica.
Sem reformas estruturais profundas, cada nova emissão poderá aproximar o país não de uma solução, mas de uma dependência crónica dos mercados financeiros internacionais.
Por Eduardo Nkossi Ngo,
Docente Universitário

