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Domingo, 08 Março 2026 22:53

A Nova Geopolítica da Industrialização Africana

Durante muito tempo, falámos da industrialização africana como um sonho sempre adiado pelos governos devido vários factores endógenos e exógenos ao continente. Desde as independências dos países africanos, o continente ficou preso por muitos anos a uma estrutura económica baseada na exportação de matérias-primas e na importação de produtos transformados.

Devido a nossa frca capacidade industrial, produzimos pouco e consequentemente tambem transformamos menos, e isto faz com que dependemos quase sempre de cadeias externas de valor.

Mas o contexto internacional mudou. E mudou profundamente significativamente, estando hoje marcado por várias tensões geopolíticas e reconfiguração da economia mundial. Dentro deste contexto, é fundamental pararmos e fazermo-nos a seguinte questão: pode a China ser catalisadora de uma industrialização leve e média em África?

Tal como temos vindo a ver, hoje a China vive uma transição estrutural da sua economia. Devido o aumento do custo da mão de obra, e sobre tudo das próprias exigências ambientais internas que têm gerado algum desafiado, e na aposta estratégica em sectores de alta tecnologia, todos esses factores estão a fazer com que a China empurre parte da sua indústria intensiva em trabalho para fora do seu território. Este deslocamento da sua indústria pode ser um indicador de uma janela histórica para África, sobretudo nos sectores da industrialização leve e média. E África pode estar diante de uma oportunidade que não pode desperdiçar.

Até há algumas décadas, a cooperação China–África, e particularmente China–Angola, foi muitas das vezes caracterizada pelo modelo “financiamento mais construção de infraestruturas”. No quadro desse tipo de modelo destacam-se as Estradas, as pontes, as barragens, os caminhos-de-ferro e habitação social, todos esses indicadores de facto marcaram uma etapa essencial da reconstrução e modernização de vários países africanos.

No entanto, essa fase acabou por criar determinadas bases materiais importantes como é o caso da energia, da logística e da capacidade de conectividade, ainda que este último ainda carece de elevados esforços. Aqui temos uma equação logica: Sem infraestrutura, não há indústria. Mas o que se vê hoje no quadro da diplomacia chinesa, a relação evolui para uma nova lógica: investimento mais cooperação industrial.

A presença chinesa em áfrica hoje apresenta característica que nos demarcam que já não se trata apenas de construir estradas, mas trata-se também de instalar fábricas ao longo dessas estradas.

Em Angola, por exemplo, observa-se uma presença crescente de empresários chineses que estabelecem unidades de produção de materiais de construção, mobiliário, bens de consumo corrente tal como temos vindo a ver quer na cidade da china, walema park, shopping popular e outros pontos aonde a produção do calçado e outros materiais de primeira, segunda e terceira necessidade já é local), alumínio eletrolítico e silício industrial.

 O caso do Parque Industrial Sino-Ode, fundado em 2018, é um dos exemplos concretos dessa transição. Ali, desenvolve-se um complexo industrial com produção de cerâmica, vidro, embalagens, papel e alumínio, com exportações para países como a República Democrática do Congo, Gabão, Zâmbia, Zimbábue e África do Sul.

Sem dúvidas, isso altera significativamente a natureza da relação comercial e política entre a China e o Continente, deixando de ser apenas infraestrutural e passa a ser produtiva.

Capacidade industrial e formação de quadros

Outro dado relevante é que a China já estabeleceu mecanismos de cooperação em capacidade industrial com cerca de 15 países africanos e participou no planeamento e construção de mais de 50 parques industriais a nível no continente. E a aspecto curioso e bastante inovador desses parques, é que eles não servem apenas as empresas chinesas. Mas, atraem investidores de várias partes do mundo.

Mas talvez o aspecto menos comentado, e que ao nosso ver é mais estratégico, esta na ênfase pouco dada no quesito formação técnica e profissional dos nacionais. A instalação dos facotes de produção no solo nacional, têm permitido a empregabilidade e consequentemente a formação dos indivíduos que são contratados nessas instalações, e isto faz com que a cooperação industrial não seja apenas um factor de máquinas, mas sim sobre pessoas. Sem técnicos, engenheiros, gestores industriais e operadores qualificados, qualquer parque industrial vira enclave isolado.

A aposta na educação profissional e na formação técnica cria de forma factual uma nova geração de mão de obra industrial africana. E aqui está um ponto central que precisa se refletir: a industrialização como tal não é um fenómeno que se importa, mas sim que se constrói com aprendizagem acumulada. A instalação dos factores de produção Chines para o continente africano tem permitido essa acumulação de aprendizagem, que, se bem aproveitada e articulada poderá ampliar a nossa capacidade industrial e poder competir de forma feliz nos mercados globais com produções fortes e de qualidade.

Há ainda um outro elemento de factor geoeconómico que não pode ser ignorado. Desde 1 de dezembro do ano passado, a China concedeu tarifa zero a 100% das linhas tarifárias para 53 países africanos com relações politicas-diplomáticas estabelecidas.

Isso tem uma leitura do ponto de vista geoeconómico: acesso preferencial ao maior mercado consumidor do mundo. Como resultado dessa iniciativa tarifaria, alguns produtos têm se destacado no quadro da exportação para o mercado chinês como é o caso do café da Etíopia, o amendoim congolês, os cajus da Gâmbia e a macadâmia do Maláui. As Plataformas como a China International Import Expo e a China-Africa Economic and Trade Expo têm desempenhado um papel estratégico adcional a essa política de tarifa zero, ampliando a visibilidade dos produtos africanos, enquanto o comércio eletrónico transfronteiriço e as vendas por transmissão ao vivo abrem novos canais de inserção.

Dessa maneira, é possível perspetivarmos que o acesso ao mercado chinês pode estimular cadeias produtivas locais e principalmente incentivar processamento agrícola e atrair

 investimento privado. Em vez de exportar apenas matéria-prima bruta, os países africanos podem começar já a pensar em alguma forme de exportar produtos com maior valor agregado.

No entanto, é verdade que temos que partir sempre da perspectiva realista para as nossas observações de política internacional, dito isto, sou obrigado a sublinhar que nenhuma potência actua por caridade. A China, como qualquer um outro Estado, persegue os seus interesses nacionais. Mas vale frisar que o verdadeiro teste não está em Pequim. O verdadeiro teste está em Luanda, Addis Abeba, Kigali ou Cairo.

Se os governos africanos não tiverem políticas industriais claras, energia fiável, regulação eficiente e estratégia de integração produtiva, os parques industriais podem transformar-se em enclaves desconectados da economia local. E isso seria repetir erros históricos sob uma nova roupagem.

A China pode abrir a porta. Mas quem decide atravessá-la somos nós.

Há, contudo, uma dimensão política incontornável. Num sistema internacional historicamente assimétrico, a diversificação de parceiros amplia a margem de manobra africana. A cooperação com a China reduz dependências exclusivas e reforça a autonomia negocial dos Estados africanos.

E talvez essa seja a grande transformação geopolítica em curso. África já não é apenas objecto da disputa internacional, graças ao engajamento chinês através de plataformas como o Brics, começa a tornar-se sujeito com capacidade de escolha. É importante sublinhar que isto não significa escolher “lado”. Significa ampliar opções.

Portanto, a industrialização africana não falhou por falta de parceiros. Falhou e tem falhado por ausência de decisão estrutural interna. Hoje, a presença chinesa cria condições objectivas para um novo ciclo de industrialização leve e média do qual os governos africanos podem reaproveitar e se reestruturarem no sistema internacional.

Mas é preciso visão de Estado, eficiente e rigoroso. Se soubermos negociar bem, regular com inteligência e planificar com responsabilidade, a cooperação China–África pode ser catalisadora de uma transformação estrutural real. Caso contrário, será apenas mais um capítulo da longa história de oportunidades mal aproveitadas.

Por, Juvenal Quicassa

Especialista em Relações Internacionais

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