Durante décadas, a UNITA construiu a sua identidade na oposição frontal ao poder. No período do partido único, essa postura era compreensível. No contexto do multipartidarismo consagrado pela Constituição da República de Angola, porém, exige-se mais do que resistência, exige-se responsabilidade institucional e proposta concreta de governação.
A questão central hoje não é se a UNITA sabe criticar, a questão é se sabe governar, ao menos no papel.
Uma parte significativa do discurso oposicionista continua ancorada numa retórica inflamável, frequentemente marcada por dramatização e polarização. Criticar o Governo é legítimo, alimentar antagonismos permanentes é politicamente arriscado.
Num país que ainda carrega cicatrizes profundas da guerra civil, o uso sistemático de linguagem confrontacional pode mobilizar emoções, mas fragiliza a cultura de estabilidade que uma democracia precisa para se consolidar. A oposição não pode confundir firmeza com radicalização, nem firme crítica com erosão da confiança institucional.
Talvez a crítica mais incómoda seja a mais persistente. Onde está o plano alternativo detalhado? Onde está o modelo económico com números, metas, cronogramas e fontes de financiamento?
Após cinquenta anos de oposição e mais de três décadas no quadro multipartidário, seria razoável esperar um programa económico quantificado, reformas administrativas calendarizadas, estratégias fiscais sustentáveis, um verdadeiro “governo-sombra” preparado para assumir funções.
Em vez disso, o que predomina é a denúncia sistemática dos erros do Executivo. Mas denunciar não é suficiente. A alternância democrática exige proposta estruturada. Sem isso, a oposição arrisca-se a ser vista como força de protesto, e não como alternativa de poder.
É natural que um partido queira governar, essa é a essência da política democrática. O problema surge quando a narrativa pública transmite a ideia de que o poder é o fim último, e não o meio para um projecto nacional consistente.
Mobilizar o descontentamento social pode gerar ganhos eleitorais, mas governar exige mais do que indignação organizada, exige competência técnica, quadros preparados e visão estratégica de longo prazo.
A pergunta obrigatória é: se amanhã vencesse as eleições, estaria a UNITA pronta para apresentar um plano de governação exequível nos primeiros cem dias? Existe esse plano?
Há ainda uma tensão ética que não pode ser ignorada. A oposição critica o sistema político, mas beneficia legitimamente das prerrogativas que ele oferece, como o financiamento partidário, subsídios parlamentares e diferentes regalias associadas ao mandato na Assembleia Nacional. Não há ilegalidade nisso, trata-se de direitos previstos no ordenamento jurídico. Mas há uma questão política e simbólica: a coerência.
É difícil sustentar um discurso radical contra o “sistema” enquanto se usufrui plenamente das suas vantagens. A credibilidade constrói-se na consistência entre palavra e prática.
Curiosamente, vozes críticas dentro do espaço oposicionista têm reagido ao surgimento de novos partidos. Mas o pluralismo não é opcional, é princípio constitucional. Numa democracia madura, ninguém detém monopólio da alternativa. Se a oposição reclama pluralismo, deve aceitá-lo inclusive quando a concorrência surge dentro do seu próprio campo político. Rejeitar a fragmentação não pode significar resistir à diversidade.
Ao completar meio século de oposição, a principal força da oposição angolana deveria apresentar-se como governo em espera, mas com estratégias devidamente comprovada, como um plano económico sólido e transparente, estratégias claras para saúde, educação e emprego, cultura de diálogo institucional, responsabilidade social contínua, não apenas eleitoral, quadros técnicos amplamente reconhecidos.
Angola precisa de alternância credível, não apenas de alternância desejada. A história já garantiu à UNITA relevância, o que falta provar é capacidade de governação estruturada.
Cinquenta anos de oposição, o desafio já não é sobreviver politicamente, é demonstrar maturidade democrática, é provar que está preparada para governar com estabilidade, competência e sentido de Estado. Porque, no fim, a democracia não se fortalece com a política do ressentimento, fortalece-se com propostas concretas, responsabilidade institucional e visão nacional.
E após meio século de oposição, o país tem o direito de exigir mais do que indignação,
tem o direito de exigir projecto.
Cinquenta anos depois, a oposição continua não sendo a opção, apenas partido de contestação.
Por: Adão Xirimbimbi “AGX”
Jurista e Investigador

