“Se a província do Zaire fosse um país, seria o mais rico de África, à frente das Seychelles. Mas, quando se vai lá, a realidade é outra: é uma miséria franciscana. Não tem nada”, afirmou o economista, sublinhando o desfasamento entre os números e as condições de vida da população local.
Segundo Carlos Rosado de Carvalho, com base em estatísticas divulgadas, o Zaire ocuparia a 42.ª posição entre os países mais ricos do mundo e seria o mais rico entre os países africanos e da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), superando inclusive Portugal. No entanto, essa aparente prosperidade não se traduz em melhorias concretas para os cidadãos locais.
Questionado sobre as razões dessa discrepância, o economista aponta para problemas na forma como os dados são produzidos e interpretados. De acordo com o próprio, cerca de 80% do petróleo angolano é contabilizado como proveniente da província do Zaire — informação que terá origem em dados fornecidos ao Instituto Nacional de Estatística (INE) pelo Ministério dos Petróleos.
Essa metodologia, explica, pode distorcer a realidade económica das províncias. “Nós fazemos estatísticas, mas essas estatísticas não têm aderência à realidade. No limite, talvez nem devêssemos publicá-las”, criticou, questionando a utilidade de dados que não refletem o quotidiano das populações.
Carlos Rosado de Carvalho defende que as estatísticas deveriam servir de base para a definição de políticas públicas eficazes. No entanto, quando os números não correspondem à realidade, o risco é a formulação de estratégias desajustadas às necessidades concretas.
O economista critica ainda o método utilizado pelo INE para calcular o Produto Interno Bruto (PIB) provincial. Em vez de somar a produção de cada província para chegar ao total nacional, como seria prática comum, o instituto terá feito o inverso: partiu do PIB nacional e distribuiu-o pelas províncias com base em determinados critérios, incluindo o peso atribuído à produção petrolífera.
Esse procedimento, segundo o analista, ajuda a explicar por que razão o Zaire surge com um peso económico tão elevado, apesar de a perceção geral apontar para Cabinda como principal centro de produção petrolífera do país.
A situação, acrescenta, não é exclusiva do setor petrolífero. Fenómenos semelhantes verificam-se noutras regiões ricas em recursos naturais, como as Lundas, onde a exploração de diamantes não se traduz, de forma significativa, em benefícios para as populações locais.
O caso do Zaire levanta, assim, questões mais amplas sobre a gestão dos recursos naturais em Angola, a fiabilidade das estatísticas oficiais e a capacidade do Estado em transformar riqueza económica em desenvolvimento social efetivo.

