Segundo o responsável, o exercício do poder no continente africano deve ser encarado não apenas como um conjunto de direitos, mas sobretudo como um campo de obrigações. Entre estas, destaca-se o dever de promover uma governação eficaz, inclusiva e transparente, capaz de responder às necessidades reais das populações.
No centro dessa abordagem está o diálogo permanente entre as lideranças políticas e a base da sociedade. Para Lukamba Gato, este mecanismo não só permite explicar políticas públicas e programas governamentais, como também funciona como um instrumento essencial para identificar tensões sociais e antecipar possíveis crises.
A ausência desse diálogo, alerta, pode levar ao surgimento recorrente de movimentos de contestação armada. “Quando rebeliões surgem como cogumelos depois da chuva, isso raramente é obra do acaso”, sugere o general, associando esses fenómenos à falência de canais inclusivos de comunicação política.
Katanga: um território estratégico e instável
O foco das preocupações recai sobre a província do Katanga, uma região historicamente sensível e rica em recursos naturais. Recentemente, um movimento rebelde denominado MDKC anunciou a sua criação, somando-se à já complexa crise de segurança que afecta o leste congolês.
O Katanga tem um histórico marcado por tentativas de secessão, incluindo a liderada por Moïse Tshombé nos primeiros anos após a independência do país. Nas décadas seguintes, novos episódios de instabilidade voltaram a emergir, envolvendo antigos combatentes katangueses.
Hoje, a importância da região vai além da política interna. Rica em minerais estratégicos como cobre e cobalto, o Katanga tornou-se peça-chave no tabuleiro geoeconómico global, especialmente no contexto da transição energética e da crescente procura por matérias-primas essenciais.
Interesses globais e riscos locais
A recente dinâmica de investimentos no Corredor do Lobito — que liga Angola ao interior do continente — reforça ainda mais a relevância estratégica da região. O projeto está diretamente associado ao chamado “cinturão do cobre”, que se estende do sul da RDC até à Zâmbia.
Perante este cenário, Lukamba Gato levanta uma questão central: a quem beneficia a instabilidade no Katanga?
Embora a resposta não seja linear, o general sugere que países que negligenciam o diálogo interno tornam-se mais vulneráveis à exploração de tensões sociais, tanto por atores internos quanto externos.
Confiança como base da estabilidade
A análise conclui com um apelo claro: a estabilidade política não pode depender exclusivamente da força. Ela deve ser construída com base na confiança entre governantes e cidadãos — confiança essa que nasce da escuta ativa, da inclusão e da prática consistente da boa governação.
Recorrendo a um provérbio popular, Lukamba Gato deixa um aviso indireto aos líderes africanos: quando os sinais de crise surgem nos países vizinhos, ignorá-los pode ter consequências graves.
Num continente marcado por desafios complexos e interdependentes, a lição é clara — prevenir continua a ser mais eficaz do que remediar.

