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Terça, 17 Fevereiro 2026 16:18

Entre Reformas, Crise Social e Pressão Política: O Balanço da Governação de João Lourenço (2017-2026)

Ilustração AI Ilustração AI

A governação de João Lourenço, iniciada em 2017, chega a 2026 marcada por um contraste profundo entre a ambição reformista anunciada no início do mandato e a dura realidade socioeconómica enfrentada pela população.

O ciclo começou sob forte otimismo — simbolizado pela chamada “Exoneração” e pela promessa de ruptura com práticas do passado — e evolui agora num cenário de desafios estruturais, inflação persistente, tensão social e maior competitividade política.

Combate à corrupção: marco histórico ou instrumento político?

O combate à corrupção foi o principal cartão de visita do primeiro mandato (2017-2022). A abertura de processos judiciais contra figuras anteriormente consideradas intocáveis alterou significativamente o cenário político angolano.

No entanto, sociólogos e analistas descrevem o processo, em parte, como uma “operação de charme” ou um combate seletivo, que teria sacrificado figuras de segunda linha para reforçar a imagem reformista sem alterar profundamente a estrutura de poder do partido governante.

Críticos apontam que figuras proeminentes da era anterior, como Manuel Vicente e generais de alto escalão, entre os quais “Kopelipa” e “Dino”, mantiveram inicialmente liberdade, alimentando alegações de seletividade e perseguição interna.

Por sua vez, João Lourenço e os seus apoiantes defendem que a luta contra a corrupção é imparcial e necessária para reformar o país, enfrentando o que classificam como uma “resistência organizada” de grupos que perderam privilégios acumulados ao longo de décadas.

Apesar das controvérsias, o Executivo conseguiu recuperar ativos e afastar figuras polémicas, produzindo uma mudança visível no ambiente político desde 2017. A interpretação do processo permanece dividida: para uns, trata-se de um marco histórico; para outros, de uma ferramenta de consolidação de poder.

Economia: recuperação moderada sob forte pressão

O balanço económico entre 2017 e 2026 é marcado por tentativas profundas de reforma, liberalização e diversificação, enfrentando simultaneamente choques externos e volatilidade dos preços do petróleo.

Após um período de contração severa entre 2016 e 2020, com média anual de -2,1%, a economia iniciou recuperação. Em 2024, o PIB cresceu 4,4%. Para 2026, projeta-se crescimento em torno de 3,5%, valor que, embora positivo, permanece próximo do crescimento populacional estimado em 3%, limitando ganhos reais per capita.

A inflação, fortemente influenciada pela desvalorização do kwanza e pela retirada de subsídios, atingiu cerca de 27,5% em 2024, recuou para 15,70% em 2025 e deverá situar-se em 13,5% em 2026, segundo estimativas do Banco Nacional de Angola (BNA). Ainda assim, setores como transportes continuam a registar aumentos expressivos, próximos de 19% no início de 2026.

O dinamismo recente tem sido impulsionado sobretudo pelos setores não petrolíferos — mineração, agricultura e comércio — embora o petróleo continue a base das receitas fiscais. A produção petrolífera enfrenta declínio, pressionando as contas públicas, ao mesmo tempo que novos investimentos, como a expansão da capacidade de refino no Lobito, procuram agregar valor à cadeia produtiva.

Privatizações e reformas estruturais

O Programa de Privatizações (PROPRIV) foi prorrogado até 2026. Desde 2019, Angola contratualizou cerca de 1,3 mil milhões de dólares em privatizações. O objetivo é reduzir o peso do Estado na economia e atrair capital privado.

A Sonangol integra o plano de reestruturação, enquanto a TAAG passou por mudanças estruturais importantes. Logo no início do mandato, a companhia aérea deixou de ser empresa pública para se tornar Sociedade Anónima (S.A.), abrindo caminho à entrada de capital privado.

Apesar de ter sido sinalizado o início da privatização da TAAG para 2026, o governo recuou no plano imediato, priorizando a consolidação operacional e financeira com apoio estatal direto.

Subsídios, austeridade e contestação social

A reforma dos subsídios aos combustíveis foi um dos pilares mais sensíveis da agenda económica, impulsionada também por recomendações do FMI.

Em junho de 2023, o preço da gasolina aumentou de 160 para 300 kwanzas por litro. O Executivo manteve inicialmente subsídios para taxistas e para o setor agrícola, mas estes foram sendo eliminados gradualmente. O fim total dos subsídios, especialmente ao gasóleo, foi adiado para 2028, após forte pressão social.

O argumento oficial sustenta que o modelo anterior beneficiava desproporcionalmente as classes mais favorecidas e incentivava o contrabando para países vizinhos. Contudo, as medidas de austeridade e o aumento do custo de vida desencadearam uma onda de protestos sem precedentes desde 2017.

O período de julho de 2025 foi particularmente tenso. Manifestações em Luanda e noutras províncias contra a subida dos combustíveis e da cesta básica resultaram em confrontos com forças de segurança. Relatos de organizações de direitos humanos e da imprensa indicam que a repressão deixou pelo menos 90 mortos, centenas de feridos e mais de 1.200 detidos.

A UNITA, por intermédio do deputado Joaquim Nafoia, afirmou que, desde 2017, mais de 360 pessoas terão morrido vítimas da atuação das forças de segurança, dados que classificou como “devidamente documentados”.

Ativistas denunciam um endurecimento da repressão, com uso frequente de gás lacrimogéneo, munições reais e detenções consideradas arbitrárias. A ONU e outras entidades internacionais pediram investigações independentes sobre o uso de força letal durante os protestos.

Política e eleições: maioria reduzida

As eleições gerais de 24 de agosto de 2022 consolidaram a reeleição de João Lourenço, mas revelaram desgaste do partido governante.

O MPLA venceu com 51,17% dos votos — a margem mais estreita desde a independência, em 1975. A UNITA alcançou 43,95%, o seu melhor resultado histórico, vencendo em províncias estratégicas como Luanda.

Embora o MPLA tenha mantido maioria absoluta com 124 deputados, perdeu a maioria qualificada de dois terços, limitando a capacidade de aprovar alterações constitucionais sem diálogo parlamentar.

Política externa: projeção continental

Um dos pontos mais fortes do balanço é a política externa. João Lourenço consolidou Angola como mediador central em conflitos africanos, especialmente na região dos Grandes Lagos.

Em 2025, ao assumir a liderança da União Africana, elevou ao palco global temas como alterações climáticas, saúde pública e reformas das Nações Unidas. Essa projeção internacional reforçou a imagem de Angola como ator relevante na diplomacia africana.

Um país entre reformas e contestação

Em 2025, Angola ocupava a posição 148 no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), segundo o PNUD, registando ligeira melhoria. O discurso oficial mantém o foco na “melhoria das condições dos angolanos”.

Ainda assim, o país chega aos 50 anos de independência sob forte contestação social e política. Entre avanços institucionais, recuperação económica moderada e episódios de repressão e tensão social, o balanço da governação de João Lourenço permanece marcado por dualidades.

O futuro dependerá da capacidade de transformar estabilidade macroeconómica em progresso social tangível, reduzir desigualdades e reforçar a confiança nas instituições. A segunda metade da década coloca Angola perante um teste decisivo: consolidar reformas sem aprofundar fraturas sociais.

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