Print this page
Quinta, 19 Março 2026 12:06

General Lukamba Gato relata bastidores dos contactos iniciais após cessar-fogo de 2002

O general Lukamba Gato revelou novos detalhes sobre os acontecimentos que se seguiram ao cessar-fogo unilateral decretado pelo Governo angolano, liderado pelo MPLA, a 13 de Março de 2002, na sequência da morte, em combate, do líder da UNITA, Jonas Savimbi, ocorrida a 22 de Fevereiro do mesmo ano, destacando episódios marcados por tensão, desconfiança e tentativas de controlo político e militar no terreno.

Segundo o relato, após a entrada em vigor do cessar-fogo a 13 de Março, o Governo angolano, através das FAA, iniciou movimentações que visavam transmitir a ideia de que já existia um diálogo formal entre as partes em conflito. No entanto, de acordo com o general, tratava-se apenas de contactos entre militares das FAA e oficiais superiores das antigas FALA que se encontravam sob custódia governamental.

Esses contactos, realizados na localidade de Kasamba, foram posteriormente considerados “nulos e sem efeito” pela Comissão de Gestão da UNITA, que reafirmou o princípio de subordinação das forças militares à direcção política do partido.

Num contexto particularmente delicado, marcado pela morte de Jonas Savimbi e do seu vice-presidente, o Secretário-Geral da UNITA assumiu um papel central na reorganização da estrutura dirigente. Foi neste quadro que se estabeleceram contactos entre o Alto Estado-Maior das ex-FALA e a liderança política remanescente.

De acordo com Lukamba Gato, no dia 18 de Março de 2002, após negociações conduzidas via rádio, uma delegação composta por oficiais generais transportados por um helicóptero das FAA deslocou-se ao Lukonya. Entre os presentes estavam os generais Kalias Pedro e Samy, acompanhados por oficiais das forças governamentais.

O encontro permitiu uma troca de informações considerada “franca e serena”, centrada nas circunstâncias da morte da liderança da UNITA, bem como nos acontecimentos registados no Luena. Contudo, um episódio específico viria a marcar aquele momento: o uso de um telefone satélite disponibilizado por um oficial das FAA.

Segundo o general, foi através desse dispositivo que estabeleceu contactos com o exterior, incluindo uma comunicação com um jornalista da Voice of America (VOA), que rapidamente se transformou numa entrevista, onde anunciou a existência de uma direcção provisória da UNITA e delineou as suas prioridades.

Além disso, foram efectuadas chamadas para Isaías Samakuva, então residente em Paris, e para o dirigente Jó Kanganji, na Bélgica. No entanto, essas conversas não tiveram a receptividade esperada.

Anos mais tarde, Lukamba Gato afirma ter compreendido a razão da frieza dos interlocutores: as chamadas surgiam identificadas como provenientes do Ministério da Defesa angolano, o que gerou suspeitas sobre a sua real localização e levantou dúvidas quanto à sua lealdade.

O episódio terá contribuído para a circulação de rumores e desconfianças internas, incluindo suspeitas infundadas sobre o seu eventual envolvimento na morte da liderança do partido, Jonas Savimbi, e do então vice-presidente do partido, António Dembo — acusações que rejeita categoricamente.

Apesar disso, o general sublinha a importância daqueles contactos para esclarecer informações num período marcado por incerteza e desinformação. Destaca ainda o papel do oficial que disponibilizou o telefone, considerando que a iniciativa teve impacto relevante na clarificação dos acontecimentos.

A concluir, Lukamba Gato enquadra estes episódios como parte de um período particularmente sensível da história recente de Angola, defendendo que os mesmos devem ser compreendidos à luz das circunstâncias complexas que marcaram o fim do conflito armado no país.

Rate this item
(0 votes)

Latest from Angola 24 Horas

Relacionados

Template Design © Joomla Templates | GavickPro. All rights reserved.