João de Almeida Martins, "Jú Martins", falava à imprensa após formalizar a candidatura do Presidente da República de Angola, que também lidera o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA, no poder desde 1975), na sede do partido, em Luanda.
O deputado disse que não houve dificuldades na recolha de assinaturas, já que, apesar de terem sido apresentadas 11.118 subscrições, havia um universo alargado de militantes que queriam fazê-lo.
"Nós tivemos o cuidado de esclarecer que não é o facto de não se subscrever a candidatura que não se tem lealdade, simpatia ou compromisso com o camarada João Lourenço. O que é relevante é cumprir os requisitos legais dos estatutos e do regulamento eleitoral", sublinhou, acrescentando que "o foco de cada um dos candidatos vai estar centrado na busca da simpatia e solidariedade dos 3.000 delegados ao congresso".
Jú Martins indicou que João Lourenço já tinha feito trabalho prévio antes de tornar pública a sua intenção na última reunião do Bureau Político, tendo sido recolhidas as assinaturas e elaborada a moção estratégica com a orientação política que "o futuro líder quer transmitir à massa militante para procurar a sua empatia e adesão".
O mandatário afirmou que o sistema partidário angolano não cria qualquer impedimento ao facto de o coordenador do congresso ser simultaneamente candidato à liderança do partido, explicando que a comissão nacional preparatória do encontro não tem poder de decidir sobre as candidaturas.
O impedimento existe apenas no momento em que se decide sobre a eleição dos candidatos, "fora isso, não há qualquer incompatibilidade", frisou.
Sobre o apoio incondicional do Bureau Político à candidatura de João Lourenço, Jú Martins considerou natural que os membros que o presidente do partido designou para o acompanhar no mandato até dezembro de 2026 manifestem lealdade a quem os integrou nesses organismos.
Abordando as eleições de 2027, o político disse ser necessário "começar a separar as águas", distinguindo o mandato de João Lourenço como presidente do MPLA --- que termina em dezembro deste ano, podendo ser relegitimado num novo mandato até 2031 --- da sua função como Presidente da República (à qual não se pode recandidatar segundo a Constituição).
"As pessoas falam muito da questão da bicefalia. A bicefalia são duas cabeças num corpo único, não há bicefalia havendo um presidente do partido e um Presidente da República, são órgãos distintos, são naturezas e funções distintas", sublinhou, indicando que uma das principais motivações da recandidatura de João Lourenço é a unidade da ação estratégica que o partido precisa até 2027.
Para se apresentar em condições fortes para disputar a reeleição em 2027, o MPLA "precisa de ter um fio condutor estratégico único", realçou.
Jú Martins aludiu à revisão do artigo 120.º dos Estatutos do MPLA, aprovada no VIII Congresso Extraordinário em dezembro de 2024, que removeu a obrigatoriedade de o presidente do partido ser automaticamente o candidato a Presidente da República.
Considerou que não é normal os partidos estabelecerem limites de mandatos para a sua liderança, mas sim fixar a duração do mandato, defendendo que "há figuras que, pela sua proeminência, podem continuar a liderar os partidos".
"Se mantivéssemos aquele artigo, estávamos a obrigar o MPLA a ter um Presidente da República que fosse conduzir o processo até às eleições, distinto do presidente do partido", disse.
Jú Martins destacou que, sendo o MPLA um partido no poder, João Lourenço tem no seu executivo "um dos seus principais instrumentos de realização de política" e que, se o Presidente da República não estiver em linha de coordenação estratégica com o candidato do partido, corre-se o risco de não atingir os objetivos estratégicos do próprio partido.
"É preferível levarmos esse barco com este nível de estabilidade, coesão e disciplina até 2027", afirmou, acrescentando que, após as eleições, se reconfigurará a análise estratégica quanto à pertinência ou não de ter um Presidente da República e um presidente do partido distintos, "mas isso é uma questão pós-eleitoral".
O político lembrou que é o Comité Central do MPLA o órgão competente para decidir se o partido vai a eleições, aprovar o candidato a Presidente e Vice-Presidente da República, a lista de deputados, o programa e o manifesto eleitoral.
"Nós avaliamos o teatro de operações políticas, avaliamos a qualidade e potencialidades dos nossos adversários, identificamos os nossos pontos fracos e fortes, as nossas oportunidades, as nossas vulnerabilidades e desenhamos uma estratégia. É em função disso que vamos dizer: o candidato ideal para conduzir toda esta máquina até à vitória em 2027 é este", afirmou.
Por isso, "ser candidato do MPLA a Presidente da República não é quem quer, é quem o MPLA julga o melhor e mais adequado", concluiu.

