| Morreu o presidente Hugo Chávez da Venezuela |
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Hugo Chávez morreu hoje aos 58 anos. Conheça a vida e o percurso do penúltimo dos moicanos. Pecavam por claro exagero as notícias que, a 16 de Dezembro do ano passado, davam como certa a morte de Hugo Chaves, presidente da Venezuela desde 2 de Fevereiro de 1999, mas elas serviram pelo menos para uma coisa: para que os venezuelanos começassem a despedir-se do homem que elegeram por maioria repetidamente. Morreu hoje, mas a sua morte já estava anunciada - como se a realidade fantástica ‘inventada' pela literatura sul-americana mais não fosse que a outra face da vida real - desde que os médicos cubanos que o operaram a um cancro afirmaram ter poucas esperanças na recuperação. O mínimo que se pode dizer de Hugo Chávez - e isso o velho militar entendê-lo-ia provavelmente como um elogio - é que não era indiferente a ninguém: amado pelos venezuelanos que nele votavam e pelos não-venezuelanos que lhe descobriam avatares de revolucionário e detestado pelos venezuelanos que nunca deixaram de o contestar e pelos norte-americanos, era uma personagem incontornável. E contudo era uma personagem eminentemente sul-americana. O sub-continente é pródigo em engendrar no seio do seu universo político actores que aliam de uma forma completamente desequilibrada (mas muito apreciada na região) o populismo mais desbragado a uma consciência social próxima do primitivismo cristão. Hugo Chávez entrou na pele dessa personagem - transversal a quase todos os países da América do Sul, com a eventual excepção do Brasil - e assumiu todas as suas características: a defesa dos mais desfavorecidos como bandeira; um nacionalismo exacerbado onde a frase ‘Pátria ou morte' serve normalmente de ‘almofada' à nacionalização de interesses económicos estrangeiros; um internacionalismo proto- religioso com os chamados partidos irmãos; e um horror a tudo o que é ‘made in' EUA. A culpa é dos EUA: em 1823, James Monroe, presidente dos EUA, engendrou aquilo a que chamou doutrina Monroe, segundo a qual nenhum país exterior ás Américas tem o direito de se imiscuir nos seus assuntos - ‘A América aos americanos' ou, dito de outra forma, todos os assuntos da América do Sul também são assuntos da América do Norte. Hugo Chávez, nascido em 28 de Julho de 1954, entrou de rompante na vida política venezuelana quando, em 4 Fevereiro de 1992, como tenente-coronel do exército e à frente de uns 300 homens, tentou um golpe de Estado contra o presidente Andrés Pérez, como resposta ao levantamento popular conhecido como Caracazo (de Caracas, capital da Venezuela, uma réplica do célebre Bogotazo). Não concretizou o golpe, acabou mesmo por ser preso durante dois anos, mas o povo não mais o esqueceria. Chávez também não: em 1997 formou o Movimento V República que, desta vez sem o recurso às armas, chegou ao poder em Dezembro do ano seguinte, com 56% dos votos. Era, disse, o ‘bolivarismo' a comandar a Venezuela e a primeira grande batalha de Chávez foi transformar o regime moderadamente presidencial numa república quase exclusivamente presidencial. O resto do programa era o óbvio: o petróleo venezuelano para os venezuelanos e a reforma agrária. Contra o costume sul-americano, Chávez não descurou o plano internacional e a Europa: faria uma primeira visita a Portugal em 2001 (na presidência de Jorge Sampaio) e acabaria mais tarde por tornar-se num ‘amigo' dos governos de José Sócrates - a quem prometeu ajuda à internacionalização da economia portuguesa em geral e aos Estaleiros de Viana do Castelo em particular, coisa que dificilmente se pode mensurar em colunas de ‘deve & haver'. Mas o certo é que a Petróleos da Venezuela (do Estado) controla cerca de 95% dos mais de 14.800 poços de petróleo do país e, por isso, Chávez nunca poderia - por muito que fizesse e bradasse contra os EUA e talvez com a excepção dos Emiratos Árabes Unidos - ser considerado em nenhum país como uma ‘persona non grata'. A sua morte abre um novo capítulo da história da Venezuela e poderá reabrir as portas do poder aos partidos do centro e da direita - que por certo pouco chorarão a partida do penúltimo dos moicanos, que só não é o último porque o seu velho amigo Fidel Castro ainda resiste. Exército venezuelano na rua para "garantir a paz" Depois de anunciar a morte de Hugo Chávez, o vice-presidente venezuelano mandou o exército do país para as ruas para "garantir a paz" "Todas as Forças Armadas Nacional Bolivariana e da Polícia Nacional Bolivariana estão a organizar-se, neste momento, para acompanhar e proteger nosso povo e garantir a paz", declarou o vice-presidente Nicolás Maduro. Após o anúncio da morte de Chávez, milhares de venezuelanos saíram às ruas das cidades venezuelana, demonstrando sinais de tristeza e pesar pelo falecimento do antigo líder. NP |
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